Opinião

Garantir a sustentabilidade da diversificação económica

Filomeno Manaças

Um indicador importante que tem a particularidade de reflectir o estado de saúde de uma economia é a produção nacional e, dentro dela, no caso especial de Angola - atendendo ao histórico da sua pauta de exportações -, a produção agro-pecuária.

Essa é uma das vias pelas quais vai nascer a diversificação da economia, única forma de romper com a dependência das exportações petrolíferas e de garantir que o país esteja em condições de amortecer os choques resultantes das variações negativas do preço do crude. O declínio dos preços do petróleo a partir de 2014 veio despertar-nos para a necessidade de termos os pés assentes em terra firme e vermos com outros olhos o potencial económico do país. Como resultado, a agricultura regressou, assim e em força, ao discurso político e, à medida que o tempo vai passando, nota-se que as abordagens em torno da diversificação da economia estão a ter cada vez mais em conta a nossa realidade, fruto também da auscultação dos nossos especialistas. Em consequência, as soluções tendem também a ser mais robustas, porque mais de acordo com o que na realidade se passa em matéria de produção agrícola nacional. Ter o domínio dessa informação é de extrema importância para tomar boas decisões, já que a experiência do passado recente mostrou que vários projectos valiosos foram erguidos, mas acabaram por não ter utilidade prática.
Saber que existem actualmente cerca de 2 milhões de explorações agrícolas familiares no país, que constituem o maior grupo de produtores de alimentos, responsáveis por mais de 80 por cento da produção interna, mas que, por falta de documentação, podem ficar privados de assistência técnica e acesso a financiamentos, no âmbito da nova política de crédito à economia, diz muito da nossa estrutura produtiva e do trabalho que é preciso fazer para criar as bases sólidas para a diversificação da economia.
Entre os factores que, de forma conjugada, podem influenciar a redução da taxa de inflação e a apreciação da moeda nacional face às divisas, estão a diminuição das importações, o aumento da produção nacional de bens e serviços a custos mais baixos, em relação aos adquiridos no exterior, e a expansão do consumo dos mesmos.
O papel que a produção agro-pecuária pode jogar no reposicionamento do kwanza no mercado nacional pode ser sentido a curto/médio prazo, se a diversificação for capaz de gerar resultados concretos nesse prazo. Por via da redução dos valores cambiais que são afectados à importação de bens, teremos uma diminuição da pressão para aquisição de divisas para essas operações, que podem bem ser úteis para aplicar em investimentos noutros sectores, que permitam o desenvolvimento da agricultura e fomentem o aparecimento de novos negócios.
Na sua edição de 10.04.2019, o Jornal de Angola dava conta do aviso do Banco Nacional de Angola, lançado à banca comercial, no sentido de cumprir as ordens necessárias para a concessão de crédito à economia recentemente divulgadas (à taxa de juro não superior a 7,5 por cento, comissões incluídas). Nessa mesma edição, o ministro da Agricultura e Florestas, Marcos Nhunga, anunciava estar para breve a abertura do concurso público para a privatização de fazendas agrícolas criadas com fundos do Estado. Mas saltou também à vista a notícia de que cinco mil toneladas de milho deterioraram-se, no ano passado, na Fazenda Marimba, no município de Kuaba Nzoji, em Malanje, devido ao mau estado das vias de acesso, e que outras três mil toneladas correm o risco de seguir a mesma via este ano.
Trata-se de uma situação que tem vindo a repetir-se em vários pontos do país e para a qual urge que sejam encontradas soluções. Caso contrário, de nada adiantará aos empresários fazerem avultados investimentos para aumentar a produção e, na hora da colheita, o milho, o feijão, a mandioca, a soja, etc., ficarem no campo a apodrecer por falta de escoamento.
As estradas jogam um papel fundamental na circulação de mercadorias e na expansão do comércio. Devem ser consideradas como uma componente importante que integra o ciclo do negócio, o qual só fica fechado quando o empresário consegue vender o produto e obter o retorno do investimento feito, de modo também a poder honrar o compromisso de reembolsar o crédito obtido. Portanto, uma visão de conjunto obriga a que seja feito um cadastramento de todas as fazendas produtivas existentes e dos seus respectivos acessos, de modo a avançar-se para um trabalho de intervenção que resulte na sua melhoria ou reabilitação, ali onde eles estiverem em péssimas condições, e na aposta na sua manutenção permanente, que deve sempre estar assegurada de modo a não afectar o escoamento das colheitas.
Investir em estradas é também garantir a sustentabilidade da diversificação económica.

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