Opinião

Género feminino

Luisa Rogério

Uma vez mais o calendário coloca-nos no mês de Março. Apesar do abominável calor típico da época neste pedaço do hemisfério sul, adoro o mês de Março.

Assinalo o aniversário da minha primogénita, do meu irmão mais velho e de outros seres humanos pelos quais nutro um afecto para lá de especial. O mês representa para mim celebrações genuínas. Mesmo que não houvesse tapetes vermelhos, flores ou gentilezas redobradas estaria a comemorar. De qualquer modo não sou indiferente aos poemas rapidamente escrevinhados para homenagear a mulher. Mas não celebro a jornada oficial com fulgor redobrado. Ao virar da página voltará tudo ao formato habitual. Quando terminar o período de excepção, as questões ligadas ao universo feminino serão empurradas para a prateleira de baixo. É a altura em que perdem visibilidade.
Engana-se quem julgar que o tamanho do desencanto me tira do contexto. Junto-me à celebração para exaltar o simbolismo do mês internacionalmente dedicado à mulher. Menos para comemorar, mais para reflectir. Procuro compreender que aspectos concorrem para que a luta pelo usufruto da igualdade de direitos não seja ainda tão vitoriosa. Ocupamos espaços nobres, temos saído de zonas tradicionalmente consideradas femininas e continuamos a quebrar barreiras. Reduziu o leque de profissões exclusivamente masculinas. Na maior parte do mundo, as mulheres deixaram de ter papéis pré-designados. Contamos imensas realizações no universo feminino que alteram a redacção da história da humanidade.
Sim, as mulheres vêm somando vitórias assinaláveis, apesar da existência de escravas sexuais e de, volta e meia, a imprensa mundial relatar casos de condenadas por terem sido estupradas. Assim mesmo, como se não fossem vítimas de predadores sexuais inúmeras vezes aplaudidos pela suposta virilidade. Tratamento cruel, leis absurdas, práticas ditas culturais e religiosas colocam a mulher em posição subalterna em distintas partes do planeta. Há lugares onde as mulheres desconhecem o significado de expressões como objectivos do milénio. Noutras a terminologia é usada para enfeitar discursos de políticos apostados em manter aparências.
Estamos longe da concretização plena do pressuposto universal que torna mulheres e homens detentores de direitos iguais à nascença. Nascemos da mesma forma, mas o percurso é determinado por factores objectivos. O poder transformador da educação, elemento fundamental para o encurtar de barreiras entre meninas e rapazes, faz toda a diferença. Evidentemente não resulta do acaso. O sucesso advém de políticas públicas realistas, vontade por parte dos detentores dos poderes públicos e de boas práticas. Governos, partidos políticos e sociedade civil têm a sua quota-parte de responsabilidade em prol da mudança.
A alteração de paradigmas com vista a deixar no passado a sociedade feudal que teima em ensombrar o século 21 em muitas partes do globo deve ser uma batalha conjunta. Quem tem medo de emancipação da mulher? Porque se receia o feminismo, a ponto de colocar no patamar oposto ao machismo? Precisa-se com urgência de revisão de conceitos! E de debates. Quanto mais intensos e frequentes, melhor.
É certo que somamos vitórias nessa penosa jornada, mas também registamos retrocessos. Em Angola diminuiu o número de mulheres no Parlamento e nos governos provinciais. A presença feminina na estrutura do poder em África diminuiu com a saída de Ellen Johnson-Sirleaf, primeira mulher eleita Presidente da República no continente. Nkosazana Dlamini-Zuma deixou a União Africana para se dedicar à política interna na África do Sul. Concorreu à presidência do ANC. Perdeu a disputa e a possibilidade de ser presidente do país. Avanços e recuos marcam o processo. Marchemos!

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