Opinião

Greve em Benguela e transplante de órgãos

Guilhermino Alberto |

A greve desencadeada na passada semana por trabalhadores de dois centros de hemodiálise em Benguela e no Lobito, para reivindicar o pagamento de cinco meses de salários atrasados, veio “ressuscitar” a velha questão da aprovação de legislação sobre transplante e doação de órgãos, para que os pacientes com problemas renais consigam ter uma maior esperança de vida.

Sendo o maior activo de Angola o homem e não os arranha-céus ou os negócios privados na área da saúde, as preocupações do sector deviam estar viradas para encontrar soluções sustentáveis e urgentes para o problema. Porque este é já um grave problema de saúde pública. Não vale a pena esconder a cabeça na areia e fingir que o problema não existe. São já milhares as pessoas que sofrem de insuficiência renal em Angola.
E o que os especialistas em nefrologia vêm recomendando há anos é que se aprove legislação sobre transplante e doação de órgãos. Gente com muito dinheiro, como é evidente, faz o transplante lá fora. Mas nem todos têm reais ou dólares para ir tratar-se no Brasil ou nos Estados Unidos, onde há legislação sobre transplante e doação de órgãos.
Como é natural, nesse processo pode colocar-se a questão da ética e até o receio de a lei ser aproveitada por redes de traficantes de seres humanos. São todos receios legítimos, mas o Estado não pode ficar refém de redes de traficantes, tem é de criar mecanismos para que os transplantes e as doações obedeçam à lei interna e sigam as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS).
A proposta de lei, que mofa há anos nos corredores do Parlamento, sai ministro entra ministro, é vista por especialistas como solução para salvar vidas de pacientes que sofrem de doenças oncológicas e renais, cuja cura passa pela substituição dos órgãos afectados.
Enquanto a lei não é aprovada, o que se deve evitar, a todo o custo, são aquelas imagens sofridas de pacientes impedidos de receber tratamento de diálise em Benguela e no Lobito. Embora os casos mais graves tivessem sido pontualmente tratados, o desespero e a dor no rosto das pessoas eram muito grandes. Houve momentos em que me perguntei se a vida das pessoas valia assim tão pouco? Custava a acreditar que aqueles médicos de braços cruzados tivessem feito o juramento de Hipócrates, que obriga os profissionais da Saúde a guardarem o máximo de respeito pelo doente e pela vida humana.
Além de explicações sobre o que se passa para a não aprovação da proposta de lei sobre transplante e doação de órgãos, que há anos mofa nos corredores da Assembleia Nacional, a nova ministra da Saúde devia aproveitar o momento para esclarecer o que se está a passar com os atrasos nos pagamentos a essas duas clínicas privadas de hemodiálise de Benguela e do Lobito, para não arcar com as culpas de decisões erradas de outras pessoas.
O que veio a público, num curto comunicado de imprensa, é que o Ministério das Finanças accionou uma medida de emergência para disponibilizar 260 milhões de uma dívida de mais de mil milhões de kwanzas para a suspensão da greve.
Sendo a insuficiência renal em Angola um problema grave de saúde pública, porque é que o seu tratamento em Benguela é feito por clínicas privadas? Se é o Ministério da Saúde a pagar esses serviços, que seguramente dão lucro, porque não dotar os hospitais públicos com equipamentos para cuidar das pessoas com insuficiência renal?
Estas são as perguntam que não querem calar e que deviam merecer também uma resposta urgente da nova ministra da Saúde, que seguramente não tem qualquer culpa pelo que se está a passar em Benguela e no Lobito, mas como titular da pasta tem sempre a última palavra.

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