Opinião

Guerra nunca mais!

Sylvain Itlé* | Piotr Mysliwiec** | Rainer Muller***

Há 100 anos a Primeira Guerra Mundial acabou  uma guerra que surgiu por causa dum nacionalismo cego e dum sentimento de superioridade nacional, que venceu toda a empatia e toda a compreensão entre os países Europeus.

Entre 1914 e 1918 10 milhões de pessoas morreram, 20 milhões ficaram feridos. o emprego de gás tóxico radicalizou a guerra, traumatizou os soldados e deixou profundas feridas no continente Europeu inteiro. Os diários e as cartas dos soldados que morreram frente a frente nas trincheiras ainda hoje são documentos comoventes do susto de guerra e das feridas psíquicas das pessoas que a testemunharam.  Porém, tragicamente, esta guerra terrível, não marcou o fim, mas antes e abertura dum século sangrento, somente 21 anos depois da primeira guerra mundial acabar, o regime nacional socialista alemão iniciou uma guerra de conquista criminosa. Antes de mais o genocídio dos judeus Europeus cometido por soldados e funcionários alemães foi um crime sem comparação na história da humanidade.
As grandes guerras de 1914-1918 e 1939-1945  provocaram sofrimentos e perdas económicas sem precedentes, Multidões foram forçadas a migrar, milhões perderam a vida, confirmou-se a sabedoria popular  na guerra todos são vítimas e poucos heróis, quase todos sofrem, e só alguns conhecem momentos de glória, foi esta experiência que afinal convenceu as nações Europeias a concordarem - guerra nunca mais! E todos se envolveram na tarefa - políticos, intelectuais, estudantes, artistas, religiosos, etc. Mas como perdoar quem nos ficou com a casa, quem nos forçou a migrar em busca de um refúgio, quem provocou a morte precoce ou o sofrimento de quem nos é mais próximo?
Em retrospectiva parece evidente que uma reconciliação foi necessária, mas nós ainda testemunhávamos na nossa própria vida as consequências das grandes guerras, os preconceitos e a desconfiança nesta altura após tantas mágoas e perdas mútuas, quase todas as famílias sofreram  também as nossas famílias, para citarmos só um exemplo, a família do pai do Embaixador da Polónia teve que testemunhar a integração da pequena cidade onde vivia no centro da Polónia no território da Alemanha no principio da segunda guerra mundial.  Os seus avós e os filhos tiveram somente meia hora para se prepararem para deixar a sua nova e confortável casa, podendo levar apenas algumas roupas. o seu avô foi severamente punido porque tentou esconder uma quantia de valores, e faleceu pouco depois. Caminharam mais de 200 quilómetros, até chegarem aos arredores de Cracóvia, onde encontraram uma família que os acolheu a todos, excepto o filho mais velho, de 16 anos, que tinha sido enviado para a Alemanha para os trabalhos forçados. Uma pequena história, bem como numerosas outras ilustram os horrores da guerra.
Nesta perspectiva é claro que a reconciliação entre os povos europeus tinha que ser o resultado de um grande esforço comum. Não foi feito de um dia para outro. Resultou de vários anos de pequenos passos e gestos. A imagem do Presidente francês e do Chanceler alemão que estendem as mãos um ao outro perante as sepulturas dos soldados caídos  na cidade de Verdum ou o abraço entre o Chanceler alemão e o Primeiro-ministro polaco em 1989 ficarão na história para sempre. Antes de mais, a reconciliação da Europa criou também a possibilidade da sua unificação política através de vários passos no sentido do aumento do nível da integração. Alguns anos depois da segunda Guerra Mundial foi fundada a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço que, com o decorrer dos anos, deu origem à União Europeia. A França e a Alemanha, dois países que se consideravam inimigos hereditários durante tanto tempo, comprometeram-se a criar uma Europa unida e integrada e até agora o eixo franco-alemão têm uma responsabilidade especial na continuação do desenvolvimento da Europa. No entanto, uma verdadeira unificação do continente só pode ser realizada após o fim da guerra fria, que ainda dividia a Europa ocidental e oriental, pois, no início dos anos 90 finalmente chegou o momento que possibilitou a criação dum espaço comum, forte e unido no continente inteiro. Em Agosto de 1991 - apenas dois anos depois da queda do Muro de Berlim - os três ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, França e Polónia encontraram-se na cidade alemã de Weimar para criarem um mecanismo de cooperação entre os três países, cujo objecto principal foi propriamente o apoio do processo da unificação Europeia. Nós ainda nos recordamos muito bem do ambiente emocionante deste evento histórico. Os três países que foram inimigos durante as terríveis guerras do século xx finalmente tornaram-se amigos e parceiros para criarem uma Europa unida, foi um evento impressionante. O encontro de Weimar iniciou uma fase de cooperação mais intensa e próxima entre os três países vizinhos. Os domínios de cooperação, que inicialmente  se limitavam aos negócios estrangeiros, foram alargados para a Defesa, Justiça, Finanças e Cooperação Parlamentar, com o decorrer do tempo envolveu igualmente a sociedade civil da Alemanha, França e Polónia, com o intercâmbio de estudantes e jovens, cooperação entre cidades, parcerias culturais. O objectivo fulcral do Triângulo de Weimar - a criação duma Europa unida - foi alcançada com a adesão da Polónia, e de outros Estados da Europa Central e do Leste, à OTAN (em 1999) e a União Europeia (em 2004). No entanto, o Triângulo de Weimar não deixou de existir, mas redefiniu as suas tarefas respondendo aos desafios de futuro da União Europeia, concentrando-se nas áreas de Política de Segurança e Defesa comum e Relações Exteriores.
Actualmente, existem vários desafios pelos quais está a passar a União Europeia, como o Brexit, o aumento da extrema direita e o populismo porém. Os países membros da União Europeia sempre têm enfrentado os problemas com optimismo e franqueza porque, a imagem da sua criação após as piores guerras, a Europa sempre se tem construído aprendendo com os ensinamentos do passado e saindo das experiências difíceis cada vez mais forte. O Presidente do Conselho Europeu, o polaco Donald Tusk tem toda a razão em dizer: «Unidos venceremos, divididos fracassaremos, conscientes dos desafios actuais, os governos europeus traçaram uma visão comum para o futuro por ocasião do 60º aniversário do tratado de Roma, tratado que institui essa cooperação única entre as Nações europeias. A Declaração de Roma foi assinada a 25 de Março de 2017 com o lema “Estamos unidos para o nosso bem, a Europa é nosso futuro comum”. Os líderes europeus comprometeram-se em trabalhar para uma Europa mais segura, na qual os cidadãos podem livremente deslocar-se; uma Europa próspera e preocupada com o desenvolvimento sustentável; uma Europa mais social face ao problema do desemprego, face à exclusão, à discriminação, e a pobreza; enfim uma Europa mais forte no palco mundial, determinada a desenvolver as suas parcerias com o resto do mundo.
Estamos convictos:  a unificação da Europa é uma história de sucesso. Depois de quase 70 anos de desenvolvimento próspero e pacífico, a União Europeia recebeu em Dezembro de 2012 o Prémio Nobel da Paz pelo seu contributo à reconciliação e à democracia no continente e no mundo,  acompanhado dessas palavras do Presidente do prémio Nobel que qualificou o esforço de reconciliação entre as nações europeias:" de exemplo o mais espectacular na história, indicando que a guerra e o conflito podem tão rapidamente ceder o lugar à paz e à cooperação". É quase um milagre que após os acontecimentos trágicos do século passado as nações europeias hoje estejam reconciliadas e unidas, temos toda razão em termos orgulho deste desempenho, que hoje nos dá possibilidade de comemorarmos o centésimo aniversário do fim da primeira guerra mundial juntos e unidos.
* Embaixador de França em Angola
** Embaixador da Polónia em Angola
*** Embaixador da Alemanha em Angola

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