Opinião

Hora de alargar o debate

Osvaldo Gonçalves

Nunca nos sentimos tão desamparados como na semana passada. Ao longo deste mais de meio século de vida, fomos assistindo à partida de parentes e amigos, mas, foi como se, de repente, o próprio chão nos engolisse vivos e, ao mesmo tempo em que ouvíamos tudo à nossa volta, fóssemos acometidos por uma total perda de voz ou, o que nos parece mais grave ainda, que a sociedade tratou de fazer ouvidos de mercador a todo e qualquer clamor, ainda que vindo do interior de cada um.

Quando pensamos, ouvimo-nos a nós próprios. Alguns dirão que é a nossa alma quem nos fala, outros eleverão o pedestal e chamarão ao barulho Deus e o diabo. Sim, porque os homens, esses, estão isentos de qualquer culpa e toda a boa acção só acontece por obra e graça do Espírito Santo.
A morte da zungueira Juliana Jacinto Félix, conhecida como “Juliana Cafrique”,28 anos de idade, natural do município do Libolo, província do Cuanza-Sul, assassinada por um agente da Polícia Nacional na Avenida 21 de Janeiro, bairro Rocha Pinto, em Luanda, serviu a uns para destilarem todos os seus feles e a outros para se tentarem despenitenciar. Uns e outros estarão certos, outros e uns estarão errados, caso continuem a remar para rumos diferentes. Ficou clara, por parte da Polícia Nacional e seus defensores, a tentativa de se minimizar o caso. Mas é bom que se diga que se os polícias não saem de casa, ao sol e à chuva, para bater e matar, também as zungueiras não se submetem às mesmas intempéries pelo simples prazer de andarem na rua.
Do lado oposto, ouviram-se e leram-se comentários despropositados a deitarem mais lenha na fogueira, com gente a deitar culpas do triste episódio à “Operação Resgate”, decretada, frisaram, pelo Titular do Poder Executivo.
Pelo meio, ficou o abutrismo político, o aproveitamento por parte dos partidos, levando a que se questionasse sobre o que fizeram e, no caso concreto das formações da oposição, o que fariam se fossem governo.
A zungueira Juliana cafricou, pela morte, os guarda-chuvas com que muitos aparecem agora a querer travar a tempestade. Belas palavras, mas a revelarem total falta de sentido, são as daqueles que falam em retirar completamente as armas de fogo aos agentes policiais, como se, de repente, a bandidagem deixasse de actuar armada.
Mais acertivos parecem aqueles que preferem apelar à calma e à consertação social sobre este assunto e, entre alguns desabafos, apontam o despreparo dos novos efectivos da Polícia Nacional – “miúdos que não fizeram a guerra” – e apontam as baterias para os seus comandantes, esses sim, indivíduos calejados, que deviam dar o exemplo.
Passam quase despercebidos outros sinais, como os da UNTA-CS, que afirma ter o país mais de 100 mil desempregados desde 2014. Fazem cara de bonzinhos ao apontar o desemprego como causa de graves problemas sociais, que fomenta a instabilidade social, enfraquece as instituições públicas e limita o exercício das liberdades e direitos polítios dos cidadãos. Tudo isso nos parece repetição da aula anterior e mais quando se acentua que desde então Angola vive uma crise económica e financeira devido à baixa do preço do petróleo no mercado internacional...
Por falarmos nesse assunto, parece-nos legítimo questionar a origem do salário a ser pago pelo emprego prometido ao viúvo da zungueira assassinada. Decerto dirão que se trata de um caso especial, a ser visto como tal, pois Juliana Cafrique deixa três filhos menores.
Mas tal não impede que um sem número de questões surja na nossa cabeça, nomeadamente, se não é hora de realizar uma ampla discussão a respeito da tutela das crianças a viver em condição de risco. É preciso alargar o debate.

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