Opinião

Humanizar as “ordens superiores”

Carlos Calongo

Com sentido de exclusividade o termo "ordens superiores", te(ve)m presença fortemente marcada na sociologia angolana, sobretudo depois do país alcançar a independência.

As “ordens superiores” tinham tanto poder, que fizeram delas algo temível e mais alguma coisa, que se podem compreender dos vários episódios à elas referenciados, desde os mais aos menos estarrecedores, independentemente do momento em que eram narrados.
Não poucas vezes, o aludido termo provocou desaguisados de tamanha ordem, ao ponto de certas pessoas chegarem mesmo a perder a vida em situações como, por exemplo, suspensos das suas funções, privados do direito de apresentar as suas versões sobre o assunto, ficaram sem salários e todos os males daí decorrentes.
Mais do que isso, não se afigura exagerado dizer que, na sequência dos efeitos das pretensas ordens superiores, muitos cidadãos "saborearam" o acre do desequilíbrio psico-emocional, ao ponto de alguns preferirem o suicídio à continuarem a viver com algum ultraje moral e/ou material, considerando a relação quase que indissociável de  uma com outra.
Consideramos que muitos terão agido de forma áspera quer na transmissão como no cumprimento de determinada ordem superior, imbuídos de certos vícios da "velha república" (tenhamos coragem de os assumir),  em certa medida caracterizada por coisas boas (i.e. gratuidade dos serviços de saúde e educação) e por outras menos boas, (arrogância, impunidade e acima de tudo, desrespeito pela vida humana).
Mais do que mera vontade do chefe -, e atenção não dissemos líder  se calhar, devemos agenciar a mentalidade da força adveniente do “poder do fusil”, algo característico do tempo de guerra que, para a nossa infelicidade colectiva,  foi das mais dolorosas realidades do pós independência, com o tempo que durou e, claro, as suas tristes memórias.
Entretanto, sendo coisas para descontar, na nova conjuntura político-social, afigura-se necessária a (re)adaptação alinhamento contextual ao novo paradigma que no fundo resulta na operacionalização do primado constitucional referente ao respeito às liberdades fundamentais, onde a vida humana aparece como o maior bem jurídico a ser protegido.
Na prática, apresentamos como factor nevrálgico desta reflexão, algo que foi objecto de abordagem pelo Presidente da República, João Lourenço, na sua primeira comunicação pública na qualidade atrás evocada, no caso, na tomada de posse-, quando dizia que “...os cidadãos precisam de acreditar que ninguém é rico ou poderoso demais para se furtar a ser punido, nem ninguém é pobre de mais ao ponto de não poder ser protegido”.
Interpretando o acima escrito, faz todo sentido pautarmos a conduta pela necessidade de humanizar-se as ordens superiores, ou seja, que elas sejam transmitidas e observadas/cumpridas nos marcos do mínimo ético aceitável, prevalecendo os valores que cristalizam a vida social dos homens.
Agindo desta forma, claro, afastam-se desagrados como àquele em que, por tais “ordens superiores”, enormes quantidades de arroz estragaram-se no Cunene o que, em bom rigor, pode consubstanciar um “crime”, considerando a existência de pessoas naquela localidade e não só, expostas ao risco de perderem a vida por escassez de alimentos, apesar de todo o esforço realizado pelo Executivo  no asseguramento do essencial para determinados segmentos vulneráveis da população angolana.
Sendo o citado apenas um dos inúmeros exemplos, mais que elencar outros tantos, afigura-se mais valioso reflectir sobre a necessidade de humanizar as ordens superiores muitas vezes emanadas do prazer de quem se sente posicionado acima da Lei, na sua expressão superior, o que não passa de utopia, pois, a mesma lei magna, é quem estabelece o princípio de serem todos iguais, perante ela.
E como disse alguém com quem reflectimos os momentos anteriores à elaboração deste texto, para os “donos das ordens superiores”: “Vamos lhes pôr na oração”.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia