Opinião

Impressões de bastidores

Luísa Rogério

A República Democrática do Congo tem sido comparada pela media e observadores a um caldeirão prestes a explodir. A história recente e ocorrências precedentes às eleições gerais de 30 de Dezembro deixam em aberto todas as possibilidades.

Declarações mal digeridas, posicionamentos do governo ou revindicações da oposição e sociedade civil podem dar razões para acender o rastilho. O risco de um conflito pós-eleitoral não resulta de conspirações projectadas em laboratórios domiciliados no ocidente. Nem de ousadas teorias esboçadas por oficiais operativos “das secretas” ávidos em acrescentar pontos às suas folhas de serviço. As análises sobre a situação no gigante adormecido da África Central não são tão subjectivas quanto possam insinuar a tranquilidade em Kinshasa e nas principais cidades.
Contactos mantidos com diplomatas, jornalistas, académicos e amigos conhecedores dos meandros políticos no Congo Kinshasa aumentaram a percepção da realidade. Ir à RDC no actual contexto pode ser perigoso. É esclarecedor o facto de algumas embaixadas ocidentais terem reduzido o pessoal e recomendado aos seus concidadãos a retirarem-se do Congo. Países contemporizadores como Portugal aconselharam os membros da sua comunidade a resguardar-se no dia das eleições.
A despeito das informações desencorajadoras mantive o ânimo. Poucas actividades me deixaram tão empolgada nos últimos tempos como a perspectiva de cobrir as eleições na RDC. Cedi ao apelo do bichinho da reportagem. Fiz-me munir da inseparável mochila, fiel guardiã do kit de sobrevivência que aprendi a carregar na época da guerra, quando ainda era jovem repórter. Comprei no aeroporto a quantidade de água que pude carregar. Não estava a viajar para um campo de batalha, mas o seguro morreu de velho. A “chandula” e o bolinho ampararam o estômago no calar da noite congolesa. O arroz com peixe frito torrado servido na noite de chegada não estava bom.
Mal amanheceu cumpri as primeiras regras para viagens internacionais: trocar dinheiro e comprar um número local. Não interessa a convivência pacífica do franco congolês com o dólar, aceite em todas as transacções comerciais. A sobrevalorização das chamadas por intermédio do whatsApp e demais redes sociais expirou com o bloqueio da internet. A alternativa passou a ser enviar despachos em formato SMS, facilitada pelo roaming, uma vez que as mensagens dos servidores locais também estavam bloqueadas. Dúvidas e omissões foram esclarecidas por telefone. Verdade seja dita, o serviço de telefonia móvel é muito bem reputado na RDC. É baratíssimo, comparativamente aos preços de Angola. Resta saber como é que conseguem praticar o “benevolente” tarifário.
Quando as autoridades cortaram a internet já tinha deixado de dormir “uniformizada”. As malas, jornais, blocos de anotações, livros e o computador mantiveram-se sempre prontos a carregar. A “desarrumação” de papéis típica de casa de jornalista deu lugar a irrepreensível organização. Não me lembro de ter dormido num quarto tão bem arrumado depois da jornada. Algo decadente, o hotel mereceu boas avaliações nos seus tempos áureos. O nível de serviço não justifica os preços cobrados, mas a localização estratégica compensa os gastos. Fica ao lado do hotel dos observadores e a curta distância da residência presidencial. Agrega a vantagem de proporcionar um despertador natural: o chilreio de pássaros que convivem irmanados com sardões no jardim bem cuidado.
Decidi unilateralmente aumentar as estrelas do meu hotel quando ouvi relatos de observadores destacados no interior. Mbandaka, capital da província do Equador, assim chamada por se localizar na linha que divide o globo terrestre em dois hemisférios, ilustra a relatividade dos factos. O melhor hotel da cidade não dispõe de água canalizada. Lá, os mosquiteiros de rede têm que ser cobertos por panos. A multiplicação de mosquitos suplanta a velocidade do som. A distribuição de energia eléctrica na cidade, que conta com bicicletas e motorizadas para táxis, vai das 18 às 22 horas. O restaurante do aeroporto a céu aberto, apetrechado com mobília do tipo “espera condições”, completa a descrição do local. A comida, porém, é excelente. Do rio navegável, onde se faz a vida na região, são pescados peixes enormes.
Óptimos paladares e sons caracterizam o país. O makayabu, a fúmbua e a chikuanga viciam. Restaurantes diversos servem pratos sofisticados a preços razoáveis. No dia 1 de Janeiro, por exemplo, vários hotéis ofereceram menús apelativos. Uma legítima unidade 5 estrelas ligada à prestigiada cadeia internacional cobrou setenta dólares pelo buffet recheado de iguarias, bebidas, incluindo champanhe e banho de piscina. Famílias de classe média, estrangeiros, muitos deles com crianças pequenas, lotaram os espaços.
O omnipresente ritmo da rumba congolesa envolve os clientes. A festiva atmosfera faz esquecer o espectro do conflito. Sente-se o legado de Franco, Tabuley, Mpongo Love e Abeti e outros músicos atemporais. Kwassa kwassa, ndombolo, sokouss e ritmos da nova geração ecoam na cidade. Nem toda a gente consegue acompanhar as frenéticas passadas difundidas pelos bailarinos de Koffi Olomidé, Werrason e companhia. Mas todos se divertem. A elegância de Papa Wemba deixou milhares de seguidores. O vocalista da banda canta Regina, tema emblemático do mestre Luambo Makiady, o citado Franco. Nostalgia! Revivo a passagem de ano. O amistoso convívio organizado pela comissária Elizabeth Rank Frank, a comandante Bety, juntou observadores, jornalistas e diplomatas. Impossível quantificar as saudades de casa, entretanto, amenizadas pelo sentido de missão.

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