Opinião

Isolamento social voluntário já

Adriano Mixinge

Desde sexta-feira que não saio do meu bairro e ainda bem que o Ministério da Cultura suspendeu todas as actividades culturais: agora que posso ficar mais tempo em casa e prefiro as vídeochamadas, o skype e desfrutar de concertos de música online deu tempo para ler e partilhar nas redes sociais os artigos do francês Jacques Attali e do sul-coreano Byung-Chul Han sobre a necessidade da instauração de uma economia de guerra nos países afectados pelo coronavírus e sobre a importância da biopolítica e do big data para o mundo que surgirá, após a erradicação desta pandemia.

Já a preparar-me para, nos próximos dias, optar por um possível “isolamento social” voluntário telefonei para minha mãe para explicar-lhe que, por exemplo, em Espanha se tiverem dois doentes com coronavírus e, no hospital, só estiver disponível um respirador os médicos preferem pô-lo na pessoa mais jovem e com possibilidades de sobreviver com melhor qualidade de vida do que alguém com mais de setenta anos de idade, deixando essa pessoa morrer.
Saí de casa, apenas, uma vez para ir ao supermercado e notei a incomodidade das pessoas, a forma como evitavam estarem umas próximas das outras, a tendência a afastarem-se descaradamente de quem espirrasse, vi muitas mais pessoas a utilizarem máscaras e luvas, enquanto pensava na queixa dos italianos que se viram ignorados pelos seus pares europeus na luta contra o coronavírus e, agora, agradecem a chegada dos contingentes de cubanos, chineses e russos para continuarem a luta.
Também deu para notar que, no geral, o que desconcerta é: não saberemos que fazer com as listas dos passageiros dos voos vindos de Lisboa que está a circular, como proteger-se daquilo que não conhecem e o receio de não saberem se as autoridades estão mesmo a partilhar toda a informação de que dispõem: os rumores, as fake news e as piadas mostram que não estamos mais sossegados, que temos medo.
Se, por um lado, o vídeo de Salú Gonçalves, que circulava pelas redes sociais, a denunciar que a filha de um “Manda Chuva” teria sido exfiltrada do avião para evitar a quarentena mostrava que se abrira uma brecha à desordem e ao descontrolo total caso fosse detectado algum caso de coronavírus, em Angola.
Por outro, desde as primeiras horas de sexta-feira passada que se notou o vazio do centro da cidade de Luanda como expressão de qualquer coisa de anormal, que resultou ser o medo: havia gente que tinha informação privilegiada sobre o que estava a passar e deslizou aos seus familiares e amigos mais queridos que, de seguida, fizeram-se com os manuais de sobrevivência, de alimentação saudável e de “isolamento social”em momentos de crise e se despacharam para os supermercados.
Daí que, quando no sábado de manhã, a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta apareceu nos ecráns de televisão sem o seu sorriso característico para confirmar o pior, o positivo dos dois casos de coronavírus, já muita gente tinha passado a noite com medo, a engendrar formas de como evitar o contágio, fazendo incursões rápidas às lojas, aos supermercados ou às praças.
O coronavírus já está entre nós e nos próximos dias saberemos a dimensão da irresponsabilidade do “Manda Chuva”- ou de quem queira que tenha se aproveitado do seu poder para exfiltrar um cidadão que deveria estar em quarentena -, da falta de respeito para com as pessoas, da corrupção e das boas intenções e do cumprimento dos deveres de Estado, sem ter sido declarado o Estado de Emergência Nacional algo que afectaria em cheio a economia informal e de sobrevivência que é a principal fonte de recursos da maioria da população.
O coronavírus já está entre nós: estão mais expostos os que não têm água para lavar frequentemente as mãos ou não poderão comprar máscaras adequadas do que aqueles que têm água potável e poderão obter máscaras para cobrir a boca e o nariz. Estão mais expostos os que vivem nas urbes do que os que vivem em zonas rurais, os que frequentam os centros comerciais do que aqueles que não os frequentam, os que se movem através dos transportes públicos do que os que não os utilizam.
Estarão mais expostos ao coronavírus aqueles que não ficarem em casa do que aqueles que ficarem e, sobretudo e inevitavelmente estamos todos expostos e vulneráveis porque simplesmente não temos um sistema de saúde robusto, nem hábitos e costumes que permitam inibir os abraços e afectos de maneira tão drástica quanto necessária.
Se não nos anteciparmos e se tomarem medidas draconianas, o que está a acontecer na China, na Itália e em Espanha não nos terá servido como exemplo. Ao longo desta semana, é possível que venha a assistir a algumas reuniões de trabalho com menos de cinco pessoas, mas, aconselho a quem puder, enquanto esperamos pelos desenvolvimentos da doença nas próximas semanas, que opte pelo “isolamento social voluntário”já.
Mas, pensando bem, sem água da rede em casa há quase um mês, no bairro Nova Vida, vamos viver como?

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