Opinião

Jovens da Banda

Luísa Rogério |

Há alguns dias tive o grato prazer de participar numa gala de premiação de jovens talentos nacionais que se destacaram no ano corrente em diversas áreas. Apesar de o júri ter escolhido um vencedor em cada categoria, de algum modo, todos os concorrentes foram homenageados e, por intermédio deles, os jovens angolanos.

A gala foi realizada pela revista que tem o sugestivo nome “Jovens da Banda”, fundada por Mila Stéphanie Malavoloneke, que também assume a direcção. Formada em Direito por uma das mais prestigiadas universidades sul-africanas e pós-graduada em comércio marítimo, ostenta o título de embaixadora mundial da juventude pela Comissão Europeia e a organização One Young World.
Mila Stéphanie é “Jovem da Banda”, esse projecto aguerrido que aglutina empreendedores de diferentes origens unidos pela crença e certeza de que podem ser bons filhos do país que pretendemos melhor. Testemunhar o desempenho de jovens que praticamente vi nascer e crescer como o Tiago, o Michel e o Israel, vê-los desfilar talento reforçou a minha convicção no futuro. Ter interagido com a Helga, formada em Medicina aos 23 anos pela Universidade Agostinho Neto, com a Núria, estudante universitária, e demais membros envolvidos de corpo e alma com as causas que defendem produziu o efeito de bálsamo para a alma. Aquietou-me profundamente. Temos viveiros. O amanhã pode superar infinitamente o passado de Angola.
Uma das principais notas da gala, muito bem organizada, apesar das falhas que deixam sempre lições válidas para quem alia capacidade de realização à vontade de aprender com os próprios erros, foi algo que vi na tela. Os mais atentos ouviram a expressão “pais da independência” associada ao vídeo em exibição. Eram Holden Roberto, Agostinho Neto e Jonas Savimbi, não necessariamente por essa ordem. Olhando à volta consegui perceber alguns sobrolhos franzidos mas, estranhamente, a maioria encarou a descrição com naturalidade. Algo que não seria normal há algum tempo.
São precisas doses reforçadas de ousadia para inserir a figura de Jonas Savimbi no rol dos pais da independência de Angola. Ou Holden Roberto que, mesmo tendo sido enterrado com honras protocolares, tem a campa votada ao abandono em Mbanza Kongo, a sua cidade natal. A história se traduz em factos. Não se desmente. Contornando eventuais versões sobre a real dimensão dos incidentes na sequência da quebra dos Acordos de Alvor, estes foram assinados pelos presidentes do MPLA, da FNLA e da UNITA. Ou seja, Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi. Portanto, os jovens limitaram-se a ir atrás dos acontecimentos e divulgá-los no vídeo apresentado durante a gala.
O dado não teria tanta relevância se, ao longo dos anos, não tivéssemos cultivado o hábito de silenciar capítulos importantes da História de Angola. Os manuais escolares reflectem a omissão, talvez devido ao contexto político vigente durante o regime de partido único, naturalmente agravado na sequência do conflito pós-eleitoral. Felizmente temos assistido à mudança de paradigmas. Quinze anos após a conquista da paz é possível falar de temas outrora considerados demasiado sensíveis. Já se fala de pais da independência no plural sem o risco de se ser considerado “inimigo do povo”.
Não está em causa remar contra a maré ou tão somente questionar os manuais. Interessa apurar os factos, ouvir todas as fontes históricas, cruzar as informações e confrontá-las. Ao introduzirem diferentes visões sobre factos comuns, os jovens mostram-se interessados em sair do script pré-definido. Certo! Ou não fossem eles jovens da banda. Ousados e diligentes. Solidários e optimistas. Legítimos guardiões de sonhos. Eles são os donos do futuro.

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