Opinião

Kianda existe, sereia não

Osvaldo Gonçalves |

A representação da Kianda em forma de sereia é atribuída aos missionários católicos que, sobretudo no tempo da “sagrada Inquisição”, combateram de todas as formas e com todas as armas quaisquer que fossem as formas de credo dos angolanos.

Fossem representativas, através de objectos de culto, fossem espirituais, todas as formas de credo eram tratadas como feitiçaria. Adivinhos e feiticeiros eram atirados para a fogueira sem distinção, confundindo de propósito o bem com o mal, de forma não apenas a despi-los de todo o valor positivo, mas a endemoniá-los.
O modo de os angolanos encararem qualquer evento que de alguma forma ultrapassasse os normais conhecimentos da ciência, incluindo o tratamento de doenças, quer fosse com respeito e admiração quer fosse com apreensão, era desprezado pelos colonialistas, e os seus praticantes tratados com desconfiança e/ou animosidade.
É Pepetela que, em “A Gloriosa Família – O Tempo dos Flamengos”, nos descreve a forma como o prelado católico lidava com os rituais africanos e os seus objectos de culto, todos amontoados e expostos ao fogo da suposta purificação.
Além disso, desenvolveu-se uma política forte de aculturação, de menosprezo pelas raízes, a começar pelas línguas maternas. As línguas são mais do que simples transmissores de mensagens entre emissores e receptores. Seja qual for o código usado, a palavra pode ser municiada e tornar-se numa importante arma de combate. Vários episódios da luta de libertação nacional são exímios exemplos de como os angolanos armaram a palavra. No extenso livro “Papéis da Prisão...”, José Luandino Vieira refere que os nacionalistas falavam em “chuva” após cada noite de distribuição de panfletos em Luanda.
É curioso verificar que a redução da ideia da Kianda à condição de simples elemento mitológico é de tal forma efectiva que é nessa base que todos, sobretudo aqueles que tomados por algum desequilíbrio mental ou emociona, inventam, ainda hoje, contactos de elevado grau, experiências de abdução, raptos de que teriam sido vítimas, passaram a “vê-la” travestida de sereia.
A falsa representação tomou conta de toda a capacidade de recriação mental do mito, arte incluída, e com esta última a mentira ganhou forma, ganhou até... beleza. A Kianda jamais se submeteria a um jogo do estilo “espelho meu, espelho...”, pois os seus poderes vão além da feitiçaria.
Mas as mudanças estão aí. Embora ligeiras, ou de alguma forma até subtis, essas mudanças são notadas na generalidade como referências na literatura e na música. Mas é com satisfação que vemos essas reclamações, embora escassas, de figuras proeminentes que se não as fazem directamente ou na boca do narrador dão-lhe forma nos diálogos dos personagens e em falas contundentes.
“- Não - disse mais velho Kalumbo com súbita irritação. Isso é coisa dos brancos, a sereia é deles. A Kianda não é metade mulher metade peixe, nunca ninguém lhe viu assim. Os colonos nos tiraram a alma, alterando tudo, até a nossa maneira de pensar Kianda. O resultado está aí nesse país virado de pernas para o ar.” O parágrafo é uma passagem de “O Desejo de Kianda” (1995, pág. 98) de Pepetela.
Pepetela é uma referência obrigatória da literatura angolana. Prémios Nacional e Camões de Literatura, o escritor faz-se notar por uma postura comedida. Arriscamo-nos mesmo a reproduzir as palavras de um leitor ouvidas num abiente descontraído, em Luanda: “Pepetela não fala à toa!”
Na verdade, Pepetela não fala, escreve. E se escreve, supõe-se que seja lido. Mas, quem lê? O hábito de ler em Angola é extremamente baixo e uma das causas apontadas é o preço dos livros, demasiado alto para a maioria, em que se incluem aqueles que lobrigam a Kianda como um simples ser mitológico. A Kianda existe, a sereia não.

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