Opinião

Ler melhor o nosso corpo e pensamento

Manuel Rui

Um jornalista perguntou ao génio poético, desta língua em que escrevo, Sophia de Mello Breyner, o importante para a escola e ela respondeu: “poesia, música e ginástica.” O entrevistador voltou à carga: “E a matemática?” Sophia esclareceu que a matemática já estava na poesia, na música e na ginástica.

Para mim, Sophia já deixou a vida mas será imortal pelo trato com a palavra poética. Pela sua maneira de receber e organizar pequenas tertúlias. Ela não oferecia uísque mas sim vinho branco. Com a palavra e a sua fé em Deus, lutou contra o salazarismo, o fascismo português.
Esta resposta síntese engloba significados e sentidos merecedores de estudos filosóficos que remontam a Platão na Grécia antiga. O corpo e o espírito entendidos como um todo onde estudar música significa estudar poesia, dança e ginástica, além de reflectir sobre os vínculos com a matemática. O corpo, o sistema nervoso e a imensa rede de relações instrumentais, uma série de operadores epistémicos, um lugar de produção de sentidos.
Todas as cosmogonias (grosso modo) como pensar a origem do cosmos e dos seres acabam por passar pela matemática que se intromete na poesia, música e ginástica. Contamos sílabas, notas musicais e movimentos do corpo. Mais, contamos sílabas de poesia para musicarmos as palavras e depois com os movimentos do corpo devidamente contados completamos um bailado.
Quando o homem começou a desenhar nas cavernas, as pinturas que para mim continuam a ser das mais belas, continham um movimento medido, uma poesia e musicalidade interior.
Trago isto hoje à nossa reflexão, pela exigência que se faz da humanização do nosso ensino primário e ao longo da vida do estudante, através do ensino da escrita criativa, dos concursos literários, do ensino da música e da ginástica (em sentido amplo incluindo a prática desportiva) que a matemática já se ensina.
Entretanto, verifica-se que há colégios e universidades de “cuspe e giz“. Os estudantes não têm um espaço para a ludicidade do aprendizado. Não fazem ginástica, não têm coral ou orfeão que une as mentes pela unidade das diferenças dos naipes de vozes, reforça as amizades e prepara melhor as pessoas para a vida. Há professores que concluíram seus cursos sem essas componentes. A isto podemos chamar coisificação do ensino. Pior é nas universidades, para além de a maioria das particulares terem o nível do ensino secundário do meu tempo (os alunos têm de aprender a ler e escrever português que não aprenderam nos níveis anteriores), o espaço físico é um edifício qualquer alugado para vender diplomas. Não são edifícios construídos de raiz para uma universidade. Não há "campus" com aposentos, espaços abertos, pavilhão e campos desportivos, ginásio, anfiteatro, piscina. Uma lembrança, lá fora há universidades onde não se pode acabar o curso sem a disciplina de natação.
Estamos em tempo de mudança. É necessário higienizar o ensino começando por encerrar os estabelecimentos privados apenas empenhados em vender diplomas e criar nos alunos uma mentalidade viral que vai minar a sociedade. Chegou-se ao ponto de uma universidade em Viana licenciar médicos em três anos.
Mas não é só nos estabelecimentos de ensino. Também nos ministérios e grandes empresas. Antigamente, na minha terra, Huambo, existiram vários orfeões. Um deles era o da fábrica de cerveja Cuca. Tenho de recordar aqui que fui solista do coro da minha escola, a escola 33. No dia do espectáculo, era no cine Ruacaná, a minha bata era feita de pano de sacos de açúcar, acho que se chama pano-cru. A professora, grande professora, pediu a um dos alunos assistentes que me emprestasse a bata alva e de bom pano. Foi uma guerra. Chorei, resisti e ganhei. Queria solar no coral com a bata cozida pela minha mãe. Que bonito seria organizarem-se orfeões em Luanda e depois concurso anual. Também havia um campeonato de futebol operário, das diversas empresas, não falando nos campeonatos escolares.
Não estou aqui a falar dos tempos livres e seu aproveitamento pois sabemos que instrumentos preciosos como a nossa televisão está repleta de filmes do culto da violência, telenovelas que tratam da vida dos ricos ou “conversas no quintal” com artistas de talento… mas o matabicho é copiado do café da manhã brasileiro com uvas e tudo. E a propósito, cheguei a alvitrar um canal de televisão escolar quando é certo que também faz falta um canal Parlamentar para o cidadão apanhar deputados a bater uma soneca…
Vem aí a robótica. Como será? Aumenta o desemprego ou aumenta o rendimento com a possibilidade de distribuir dinheiro a quem deu lugar ao robot?
Uma coisa me parece certa. Com a inteligência artificial não vai acabar a poesia, a música, a ginástica e a matemática. Até lá…como estou fora, neste sábado, dia 17, dia frio e chuvoso, quase no fim desta crónica chega-me uma nostálgica saudade: almoçava hoje um muzonguê ou um mufete de peixe-galo com um feijão de óleo de palma a preceito…

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