Opinião

Lições de “O Bem Amado” e algo da realidade política

Osvaldo Gonçalves

A repetição, nas redes sociais, de algumas cenas da telenovela (1973) e da série (1980) “O Bem Amado” demonstra o impacto que essas obras, ambas adaptadas para a televisão, por Dias Gomes, com base na peça de teatro “Odorico, o Bem-Amado”, escrita pelo própro autor, em 1962, tiveram e ainda têm no público angolano.


A telenovela “O Bem Amado”, produzida e exibida pela Rede Globo, entre 22 de Janeiro e 3 de Outubro de 1973, foi a primeira novela a cores na televisão brasileira e teve grande receptividade em Angola, quando exibida pela, na altura, Televisão Popular de Angola (TPA), embora seja justo afirmar que grande parte do seu conteúdo tenha passado despercebida pela maioria dos telespectadores.
Com um elenco de renomados actores, de que faziam parte Paulo Gracindo, Lima Duarte, Ida Gomes, Dorinha Duval, Dirce Migliaccio, Sandra Bréa, Jardel Filho e Zilka Salaberry, nos papéis principais, “o Bem Amado” foi eleito, em 2016, pela revista “Veja”, como a quinta “Melhor Telenovela Brasileira” de todos os tempos. Ela foi a 17ª “novela das dez” (horário nobre da TV na época) exibida por aquela emissora.
Segundo o enredo da telenovela, o prefeito (presidente da  Câmara, alcaide) Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), um político corrupto e cheio de artimanhas, tem como meta prioritária da sua administração na cidade fictícia de “Sucupira”, no litoral baiano, a inauguração do cemitério local.
De um lado, é bajulado pelo secretário gago, “Dirceu Borboleta”(Emiliano Queiroz), profundo conhecedor dos lepidópteros, e conta com o apoio incondicional das irmãs Cajazeiras, suas correligionárias, amantes e defensoras fervorosas, “Doroteia” (Ida Gomes), “Dulcineia” (Dorinha Duval) e “Judiceia” (Dirce Migliaccio).
Do lado oposto, “Odorico” tem de se bater com a forte oposição liderada pela delegada de polícia, Donana Medrado (Zilka Salaberry), que conta com o apoio do dentista “Lulu Gouveia” (Lutero Luiz), inimigo mortal do prefeito e líder da oposição na Câmara - atracando-se constantemente com Doroteia no plenário, e ainda com o jornalista “Neco Pedreira” (Carlos Eduardo Dolabella), proprietário do jornal local “A Trombeta”, sem falar em “Nezinho do Jegue” (Wilson Aguiar), defensor fervoroso de Odorico quando sóbrio e principal acusador, quando bêbado!
“Odorico Paraguaçu” arma, de forma maquiavélica, sucessivas tramas para que alguém morra na pequena cidade, mas todos os intentos são gorados, até mesmo quando resolve trazer de volta a “Sucipra” o cangaceiro “Zeca Diabo” (Limam Duarte), famigerado matador agora “redimido”.
No fim da estória, “Zeca Diabo”, revoltado com tantas falcatruas do perfeito, mata “Odorico” e é ele quem, finalmente, inaugura o cemitério. A série, um prolongamento da telenovela, foi produzida e exibida entre 1980 e 1984. Em 2010, “O Bem-Amado” foi levado ao grande écran, como filme, por Guel Arraes.
A TV Globo fez uma mini-série com as cenas do filme, que dividiu em quatro capítulos, apresentados em Janeiro de 2011. Embora alguns comentários feitos à volta das cenas agora postadas nas redes sociais denotem certo despreparo dos internautas, em relação à política e ao desempenho dos políticos, com muitos deles a indiciarem falta de conhecimentos sobre as técnicas usadas, tanto pelos escritores, quanto pelos actores e directores, ficando-se pelos aspectos mais anedóticos das cenas, algumas das observações feitas indiciam evolução do público, não apenas no que diz respeito à dramaturgia, mas também em relação aos actores políticos.
Numa altura em que a população angolana está cada vez mais envolvida na vida política do país, como se pode notar pelo envolvimento cada vez maior no processo de preparação das eleições autárquicas, é natural que cada um se preocupe em perceber mais a fundo todas as nuances do momento.


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