Opinião

Luanda Leaks: arrogância, cinismo e ingenuidade

João Mello |*

Este texto não é sobre o conteúdo das denúncias constantes no processo rotulado de Luanda Leaks, as quais atingem sobretudo a engenheira Isabel dos Santos. Por um lado, não é preciso ter lido Gabriel Garcia Marquez para concluir que tudo o que está a acontecer estava anunciado desde as primeiras declarações do novo Presidente angolano.

Por outro, essas “revelações” já têm sido comentadas por vários outros exegetas, talvez mais especializados do que eu na realidade política angolana.
O que me interessa é apenas fazer algumas observações, sem quaisquer pretensões de maior, acerca de três eternos vícios humanos: arrogância, cinismo e ingenuidade. O episódio em causa tem sido fértil em demonstrações que tais, da sua origem ou génese até às diferentes reacções às denúncias que foram vazadas e à sua análise e interpretação públicas.
Em primeiro lugar, a arrogância é a única (digo bem, única) causa da situação em que a primogénita do ex-Presidente angolano, José Eduardo dos Santos, se autocolocou. Como se sabe, as autoridades angolanas resultantes das eleições de Agosto de 2017, mal entraram em funções, fizeram aprovar uma lei de repatriamento voluntário de capitais que, excepção feita ao peculato, correspondia a uma segunda amnistia, possibilitando que todos aqueles que enriqueceram de modo ilícito conservassem os capitais acumulados, desde que os domiciliassem e investissem no território nacional. Até ao prazo final dessa nova amnistia (31 de Dezembro de 2017), a engenheira Isabel dos Santos não só não o fez, como passou a adotar abertamente uma postura de enfrentamento do Estado.
“Overdose de arrogância”. Foi assim que alguém, com o típico humor caluanda, classificou a atitude de Isabel dos Santos. Com tal comportamento, o Presidente João Lourenço não tinha outra alternativa se não accionar os mecanismos legais à sua disposição, a fim de fazer ressarcir o Estado dos capitais obtidos irregularmente pela ex-proprietária da UNITEL, BFA, BIC, CANDANDO, ZAP, EUROBIC, EFACEC e cerca de outras quatrocentas empresas mais, a maioria offshore.
Em segundo lugar, este caso tem permitido um autêntico festival de manifestações de hipocrisia e cinismo, que mostram como a natureza humana é imutável, mau grado as transformações tecnológicas e os inegáveis avanços das nossas condições materiais de existência.
Não me refiro apenas à igualmente previsível atitude dos ex-avençados, colaboradores e sócios de Isabel dos Santos, quer em Portugal quer em outras paragens menos periféricas, que estão a saltar do barco como ratazanas em pânico. Incluo aqui, também, certas vozes, tanto à esquerda como à direita, que gostam de posar de seres “moralmente superiores” e que, nas últimas semanas, resolveram desancar nos “amigos brancos” de Isabel dos Santos. Alguns chegam ao ponto de derramar lágrimas porque, afinal, depois de 500 anos, Portugal não conseguiu “civilizar” Angola. Cinco séculos de história em cima de nós e ainda pensamos que há (ou poderia ter havido) um colonialismo “bom”?
Desconfio que tudo isso tem mais a ver com o debate ideológico e a luta política interna em Portugal do que com Angola e os angolanos. De facto, não me lembro, antes do actual episódio, de ter visto nenhuma dessas vozes, talvez exceptuando a ex-deputada socialista Ana Gomes, a denunciar os aliados portugueses de Isabel dos Santos e outros milionários angolanos. O alvo (quase) exclusivo eram estes últimos e não os seus parceiros “ocidentais”. Uma nota, pois, para salientar que este caso só se tornou notícia no mundo depois da iniciativa das próprias autoridades angolanas.
Por fim, a ingenuidade é o terceiro vício que o Luanda Leaks e o caso de Isabel dos Santos permitem realçar. Refiro-me à tese de que essa grande fuga de informação “é trabalho de jornalistas”. Não, não é. Aliás, o advogado do hacker português Rui Pinto (o mesmo do FootballLeaks) afirmou que este último é o único que está por detrás do Luanda Leaks.
Verdade ou mentira, uma coisa é certa: trata-se de processos que só podem ser levados a cabo por quem, além de recursos de inteligência e capacidade tecnológica, também possua uma estratégia institucional de poder, qualquer que seja a natureza desse poder. Independentemente, portanto, do mérito das informações assim obtidas, e como escreveu a directora executiva do português Diário de Notícias, Catarina Carvalho, isso pouco tem a ver com as características de uma autêntica reportagem jornalística. Para mim, trata-se de “jornalismo de secretária”.
“Revoluções” de hackers e consórcios de jornalistas? Nunca acreditei em estórias da carochinha.

*Jornalista e escritor

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