Opinião

Lusofonia: uma mera concepção doutrinária (II)

Filipe Zau |*

Dizia, no século XVIII, o filósofo e político anglo-irlandês Edmund Burke, que “os povos que não olham para trás para os seus antepassados, não serão capazes de olhar para a frente, para a prosperidade.” Em África, à excepção de Angola e, actualmente, da Guiné Equatorial, todos os outros países africanos da CPLP estão também ligados a outras comunidades análogas: Cabo Verde, Guiné-Bissau e S. Tomé e Príncipe, à Francofonia e Moçambique à Commonwealth. Porém, afirma-se à boca cheia, que todos os países da CPLP fazem parte, unicamente, da chamada “lusofonia” e, até mesmo, de uma hipotética “comunidade lusófona”.

Há quem chegue ainda a afirmar que há uma “cultura lusófona”, apenas porque a língua portuguesa é língua oficial e escolaridade nas ex-colónias em África, no Brasil e em Timor-Leste. Angola já manifestou o seu interesse político em futuramente associar-se à Francofonia e à Commonwealth. Na perspectiva defendida pelo escritor José Luís Mendonça, passaremos a ser simultaneamente “lusófonos”, “francófonos” e “anglófonos”? António de Oliveira Salazar, presidente do Conselho de Ministros de Portugal, chegou um dia a afirmar o seguinte: “politicamente, o que parece é”.
Todavia, a “Declaração Constitutiva da CPLP”, de 16 de Julho de 1996, é completamente omissa em relação ao termo “lusofonia”, bem como qualquer outra declaração oficial saída da Conferência dos Chefes de Estado e de Governo, que é o fórum mais importante desta organização multilateral, cujos fins assentam em três vertentes: concertação político-diplomática nos fora internacionais; cooperação multilateral e multissectorial; e promoção e difusão da língua portuguesa.
Mas, este idioma, como qualquer outro, não tem dono. Os proprietários das línguas são, tão somente, os seus usuários. As línguas, todas elas, fazem parte do acervo cultural da humanidade, independentemente de quem as promove e difunde. Há, por outro lado, um número relevante de palavras de origem bantu que fazem parte do acervo da língua portuguesa e que, oficialmente, este facto não vem sendo revelado à opinião pública. Para não ser exaustivo, de uma longa lista, passo a referir-me apenas a alguns vocábulos de origem no Kimbundu, apesar de também haver apropriações de outras línguas africanas:
“Andas” de “uanda”, que é uma tipoia presa a duas varas longas, e que se conduz apoiada aos ombros no transporte de pessoas ou cargas pesadas; “Banjo”, de “mbanza” (assim registado em 1894 pelo folclorista e filólogo americano Heli Chatelain em “Folk-Tales of Angola”), instrumento musical desde, pelo menos, meados do século XVI, conhecido em Portugal pelo nome de “banza” e que aparece na xilogravura que ilustra a capa do folheto do “Auto da Natural Invenção” de Ribeiro do Chiado, anterior a 1549; “Bunda, nádegas, de “mbunda”; “Cabaço”, no sentido popular de virgindade, hímen, de “kabasu”; “Cachimbo”, de “kixima”, escavação aberta numa superfície formando um oco ou buraco e que deu origem ao verbo cachimbar; “Cambada”, de “dikamba”, amigo, parceiro, camarada; “Careca”, de “makorica”, calvície; “Carimbar”, “carimbo”, palavras classificadas, em 1873, pelo bispo D. Francisco de São Luís, no seu glossário, citado como “vocábulos muito modernamente introduzidos em nossa língua em papéis do governo, para significar a marca pública que se punha ou se põe na moeda papel, ou na metálica, de “kirimbu”, marca, donde formam os povos [os povos de Angola] as vozes verbais “kuta-kirimbu” e “kubaka-kirimbu”, marcar; “Cochilar”, de “kochila”, dormitar, o que originou também “cochilo”, modorra, da forma “acucochila”; “Dengue”, de “ndengue”, o mais novo, criança, o que motivou o emprego do mesmo nome, por extensão, em Portugal, aos grados e carinhos com que as escravas procuravam acalmar as crianças choronas; “Encafuado”: metido em lugar ermo e escuro, de “ka-nfundu”, moradia em lugar distante e ermo; “Minhoca”, de “nhoca”, cobra, tendo aglutinado o prefixo locativo “um”, em dentro de, o que configura a ideia de anelídeo encontrado no interior da terra… Porém, a perspectiva “lusófona” é vista apenas em um sentido, com uma forte conotação eurocêntrica.
Segundo Valentin Mudimbe, um filósofo da República Democrática do Congo, no seu livro «A Invenção de África – Gnose, Filosofia e a Ordem do Conhecimento», diferentes discursos académicos criam mundos de pensamento, nos quais as pessoas concebem a sua própria identidade. Porém, “identidade e alteridade são sempre dadas a outros, assumidas por um Eu ou Nós-sujeito, estruturadas em diferentes opiniões e expressas ou silenciadas de acordo com desejos pessoais face a uma episteme”. As ideologias são como os mapas, afirmou Edgar Morin. Ou estão próximas da realidade, quando são receptivas à absorção de novas informações, ou então criam sistemas imunológicos, mais ou menos eficazes e aproximam-se dos toscos mapas medievais, que representavam o mundo de forma imaginativa e fantasiosa.
Fazendo minhas as palavras do já falecido Embaixador Luís Gaspar da Silva, que foi docente na Universidade de Minho, onde o conheci, no seu livro de política de cooperação, intitulado “Utopia seis destinos”, antes de qualquer lusotopia, há a necessidade de “fazer desaparecer definitivamente a ideia reaccionária de que o africano não é completamente normal, mas pode ser ‘assimilado’.”
* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

 

 

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