Opinião

Manter o foco e o resto se vê

Carlos Calongo

O discurso proferido por João Lourenço na cerimónia de investidura como Presidente da República continua actual, na medida em que as principais acções levadas a cabo pelo Executivo de que é Titular reflectem a materialização do texto em referência, por um lado, e reforça a tese da profundidade e sentido de Estado subjacentes no discurso em causa,por outro.

Na sua concepção, mais do que meras palavras, o conteúdo do texto objectiva, sem margem para dúvida, o valor máximo da expressão “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”, que marcou o lema da campanha eleitoral que sufragou o MPLA, mais uma vez, como partido com força governativa.
A luta contra a corrupção mantém o seu carácter prioritário, sobretudo em relação às acções que visam moralizar as instituições do Estado, que se querem cada vez mais fortes e capazes de colocar o interesse nacional acima dos interesses particulares ou de grupo, prevalecendo a defesa do bem comum, no âmbito das políticas públicas que vão ao encontro dos anseios dos cidadãos.
Significa, o que acima se lê, a corporização da responsabilidade de ser construída uma Angola próspera e democrática, com paz e justiça social, onde “o mais importante é resolver os problemas do povo”, expressão rebuscada do vasto léxico de máximas políticas de António Agostinho Neto.
Para este desiderato, a sociedade é instada a adoptar uma postura de compromisso, marcada por uma generalizada disciplina no cumprimento das normas e procedimentos do que de bom se recomenda na administração da coisa pública.
Infelizmente, perante este quadro real, alguns cidadãos preferem adoptar comportamentos marginais aos novos ventos da forma de ser e estar nos corredores da política doméstica e, mais grave que isso, usar o “poder” que ao longo do tempo conseguiram arregimentar por conta da acumulação de riqueza económica e com ela, os demais aspectos de influência, com os quais tendem contrapor as medidas em curso das quais os resultados esperados, em última instância, devem merecer o apoio de todos os cidadãos de bem.
Ao se aperceber do fenómeno acima descrito, o Presidente da República, nas vestes de líder do partido que suporta o Governo, optou por recordar, durante o discurso de abertura da sétima reunião ordinária do comité central, que a caminhada é irreversível, e que o favor a ser feito, nesta altura, é manter o foco na linha de orientação, há muito definida.
Em termos concretos, o camarada João Lourenço disse: “Alguns, entre nós, insistem em criticar a nossa determinação, augurando mesmo um possível fracasso segundo eles, ignorando deliberada e conscientemente que esta foi uma das principais bandeiras do programa que o MPLA submeteu ao sufrágio nas urnas”.
Este recado, se assim podemos chamar, tem razão de ser, sobretudo para quem, no âmbito das acções do repatriamento de capitais, - assunto de todo actualizado -, ousou desafiar o período de graça de seis meses generosamente oferecido à luz da Lei, e preferiu criar e disseminar a ideia segundo a qual a cruzada contra a corrupção está a fragilizar o MPLA e pode mesmo levar à sua divisão.
Quem assim procede terá esquecido que a referida cruzada contra a corrupção, mais do que uma acção partidária, é uma questão de Estado de quem somos todos agentes activos, independentemente das convicções políticas, ideológicas ou filosóficas.
Está claro que opor-se ao que a nossa consciência colectiva aprova como valor positivo é abrir uma linha oportuna para a intervenção da Justiça que para lá do formalismo textual da sua vocação tem a actuação, nos dias que correm, apontada para o resgate do sentimento de confiança nas instituições do Estado, apesar dos percalços que vezes sim, vezes também, são observados no desenrolar de vários processos em curso nos órgãos competentes, como foi do caso “Fundo Soberano”.
Aqui chegados não restam dúvidas que todos, absolutamente todos, que residem ou não no solo pátrio angolano, estejam interessados na construção da democracia, à luz do espírito de ser um acto contínuo, ou seja, um projecto permanente de toda a sociedade, comparável à flor que, deixada de ser irrigada, murcha e morre.
Sendo que, em último rácio, a atitude passa por manter o foco e o resto se vê.

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