Opinião

Mapeando o WC

Osvaldo Gonçalves |

Dantes, dizia-se que todos os gatos eram pardos à noite.

Agora já não! Os bichanos, como eram tratados na generalidade, ganharam outras cores. Cores que, na verdade, sempre tiveram, mas não eram vistas. Ou eram simplesmente ignoradas. Tal como eram certas pessoas que tiveram o seu tom alterado e só faltou dizerem que éramos todos azuis, porque alguém, no gozo, fez questão de mencionar que há sempre uns mais azuis que outros.
O racismo, como os gatos, mudou de aposentos, grosso modo, emigrou da sala de visitas, onde predomina o “politicamente correcto”, para se enfornar nos quartos e dormir na casa de banho, no sótão, onde sem querer depositamos os baús dos nossos preconceitos. A maioria dos gatos passou a ter nome próprio. Alguns até receberam coleiras com GPS. Gatos continuam a ser, mas agora são localizáveis. O povo conta o que viu e o que ouviu dizer. Quem conta um conto, aumenta um ponto, quem vê um gato, diz ter visto uma pantera. E, se, antes contava aos parentes, aos amigos, aos colegas, hoje põe na Internet, diz-se que “partrilha” ou “compartilha”. Num click, todos conhecem o gato e sabem onde ele está. Mas, mais do que uma coleira com transmissor, o gato vive num cenário reality show de causar inveja a qualquer Big Brother. Os gatos deixaram de ser pardos.
A qualquer hora, o gato pode ser localizado, filmado. As imagens captadas são armazenadas e depois editadas para dar corpo a um documentário de canal especializado ou transmitidas em directo, ao vivo. Tudo é seguido. Monitorizado. Não existem zonas mortas neste cenário. É assim a casa de qualquer “cidadão de bem”. Sem câmaras não há vida, sem vida não gatos.
Como você é um democrata, todos sabem disso – e se não sabem, deviam saber -, não precisa haver lei a respeito. Filma-se e está filmado. Se alguém editar, tanto pode seleccionar as imagens para um lado um lado, cabo para outro. Na verdade, partilha-se porque está-se longe de querer compartilhar. Cabe a quem vê as imagens decidir se quer ver, julgar se a pantera mencionada não é tão só um gato doméstico, por azuis que se lhe pareçam os olhos.
Daí termos de conhecer o meio em que nos movemos, não apenas marcar uma possível rota de fuga, para tal bastaria deixar migalhas para trás, como fizerem João e Maria para fugir da bruxa má. De uma coisa estejamos certos: já ninguém quer ter sonos profundos para sonhar alto como antigamente, muito menos com gatos, quanto mais pardos.
Para conhecer bem os cantos da casa, nada melhor que recorrermos às novas tecnologias. Com tantas preocupações no dia-a-dia, longe de nos esquecermo das filhoses perdidas em qualquer ponto do domicílio e deixarmos que o gato, por mais pardo que seja, vá a elas.
Para a maioria das pessoas, a divisão mais importante da casa é a cozinha, partindo-se do princípio de que quem não presta para comer, também não presta para trabalhar, mas é ponto assente que, se para tudo, há um início, a vida em família começa mesmo é na casa de banho, onde, entre outras coisas, se muda a água do radiador a qualquer hora do dia ou da noite. E, se os tempos, apertam, para lá acorremos, não apenas para nos livrarmos dos ajustamentos, mas mesmo para apelarmos a determinados utensílios, pois se em tempos de guerra não se limpam armas, em tempos de crise talvez nos devamos livrar da mijarada, pois o penico pode ser preciso para comer lambula assada.
Só assim se pode perceber que o nosso amigo tenha recorrido ao Google Map para ir ao WC durante a noite e agora se sinta arisco quando lhe pedem que mostre a acta síntese, se alega ter havido fraude durante tal incursão.

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