Opinião

Maravilhas do futebol da Aldeia

Sousa Jamba

Devo ser uma das poucas pessoas que não está minimamente interessada na Copa do Mundo que está a realizar-se na Rússia.

Não é que não goste de futebol; o jogo que mais predominou na minha vida foi a bola, como dizem alguns. Porém, acredito que no coração deste jogo existe aquele desejo de celebrar o que é local. A comercialização e internacionalização deste jogo me inquieta. As projecções absurdas que certas pessoas fazem são pouco sérias: a justaposição da organização calculista teutónica contra a criatividade e brilho tropical, por exemplo.
Hoje o futebol reflecte a incoerência do arranjo da economia global: o Ocidente, especialmente a Europa, atrai todo o talento global, cria um sistema complexo através do qual este talento é exibido, e o resto do mundo paga.
Em 1957, o meu pai, Tavares Hungulu Jamba, criou uma escola no Kachilengue, cerca de dez quilómetros do Katchiungo. Em 1960, Katchilengue jogou contra o Instituto Currie do Dondi. A grande inspiração do Instituto foi o Robin Markham, filho do missionário Markham que construiu a missão do Dondi. O Robin Markham (como vários filhos de missionários protestantes) tinha um nome em Umbundu – Elengue. O Elengue era um guarda-redes temido. Segundo a minha mãe, Ruth Simbovala, que fica altamente animada ao relatar este jogo que aconteceu há mais de meio século, tudo levava a crer que Katchilengue ia levar. O jogo começou. O grande salvador do Katchilengue foi um moço chamado Balão; havia alguém com a alcunha de Coluna e Garrincha. Katchilengue meteu vários golos e o Instituto ficou completamente humilhado. Segundo a minha mãe, houve uma grande festa em que se bebeu muito chá e comeu-se pães. Houve, até, alguns bolinhos vindos da loja da Madame – uma francesa errante que se instalou na Bela Vista e que animou a vida da vila que, até então, era dominada por comerciantes.
Alguns anos atrás, o Sekulu Elengue (como o Dr. Robin Markham gosta de ser chamado) passou por minha casa cá em Jacksonville, Florida, com a sua esposa Fran. Os meus filhos ficaram altamente divertidos ao ver um mais velho branco a falar Umbundu comigo. Quando falamos do Katchilengue, o Sekulu Elengue, bastante triste, falou do famoso jogo e disse que tinha havido batota. Meses depois, em Portugal, o Sekulu Elengue e a minha mãe encontraram-se e, em Umbundu, tiveram mais uma discussão sobre aquele famoso jogo. Naturalmente, sendo filho do Katchilengue, acho que o SekuluElengue deveria conformar-se: ganhamos! Em sottovoce, porém,  a Mamã diz que parece que o Balão e os outros não eram de Katchilengue… Não posso falar muito.
Alguns meses atrás, eu estava andando com o meu primo Bernabé Kaupe, na nossa aldeia ancestral do Chiumbo. O primo Bernabé, com mais de oitenta anos, estava a andar com muita pressa; eu mal respirava. O primo Bernabé disse que ele foi o melhor jogador do Manico. Ele levou-me para o campo de futebol que fica numa terra elevada da qual, no fundo, se pode ver a cordilheira de Lumbanganda, no Bailundo. Lá estávamos no campo com o primo Bernabé a me contar como é que os do Katchiombo, Kalunda, Kavava, Miyapia, Napika, Tandaganji e outras aldeias derreteram quando ele começou a meter os golos. Perguntei-lhe se ele já tinha ouvido falar do Robin Markham – o famoso Elengue. O primo Bernabé puxou-me de lado, tentando teatralmente representar o que terá ocorrido quando, nos anos 60, o jovem Elengue apareceu na baliza, vestido todo de branco. Só que, disse o primo Bernabé, ele estava bem em forma: vários golos entraram, marcando mais uma grande vitória do Manico. O Sekulu Elengue vivia no Estado de Tennesse, mas agora vive na Califórnia. Gostaria tanto de ouvir a versão dele sobre aqueles jogos. Para mim, narrativas como as que citei em cima, fazem parte daquele tempero, quase inefável, do sabor das nossas vidas. Sempre, quando viajo para o interior de Angola, e vejo um jogo animado de futebol, imagino as narrativas que irão resultar do mesmo.
Assisti recentemente a um jogo de futebol no Katchilengue. O árbitro, de fato e gravata, era um Mano Tesoureiro da IESA. Quando cheguei ao campo, o jogo foi interrompido, já que eu tinha que cumprimentar cada jogador. O jogo durou quase toda tarde. Membros da mesma equipa trocavam palavras quando alguém não passava a bola. O Mano Árbitro criticou severamente vários jogadores. Lá estávamos com o nosso jogo com as suas excentricidades. Aí a corrupção da FIFA não contava. Ninguém tinha ouvido falar do Senhor Issa Hayatou que, no seu jacto privado, distribuía milhões para os seus joguetes no continente Africano. Aí,  os consórcios de apostas do meu Oriente, cujas manobras resultaram  na desonra de alguns jogadores africanos na Europa, eram completamente desconhecidos. Aí estávamos com as maravilhas do futebol da nossa aldeia. É o que mais conta!

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