Opinião

Mário de Andrade sob o olhar de Edmundo Rocha (III) (Crise interna e partida para o exílio)

Nesta terceira e última parte da palestra proferida, em 2010, pelo médico e investigador Edmundo Rocha, em Lisboa, na Fundação Mário Soares, sobressai a dificuldade de unir o movimento nacionalista angolano como um todo, dada a sobrevalorização das questões étnicas e ideológicas em relação à causa nacionalista.

Seguiu-se, posteriormente, a primeira crise política interna no seio do MPLA, que levou Mário de Andrade a partir para o exílio, tendo acabado por falecer, em Londres:
"A luta pela Unidade do movimento nacionalista foi sempre uma constante nas preocupações de Mário, recebendo de Holden Roberto uma recusa brutal. Por outro lado, a ofensiva desencadeada pela UPA, acusando o MPLA de ser um “ movimento de mestiços, filhos de colonos”, teve como consequência o afastamento da Direcção Provisória de três dirigentes mestiços: Viriato, Lara e Eduardo Santos. Apesar de mestiço, Mário conservou o seu lugar de Presidente. A chegada de Agostinho Neto em terras africanas, em Rabat (Marrocos), foi para Mário e para Lara a ocasião para saudarem “aquele que todos nós consideramos como o chefe do nosso movimento e o Homem capaz de unificar os movimentos desunidos”. Foi então que Mário teve a infeliz ideia de ceder, com alívio, a direcção do Movimento. Assisto à chegada de Neto a Kinshasa, a quem ofertei em minha casa um lauto banquete, com Mário e Viriato presentes.
A chegada de Neto altera o ambiente de unidade e de fraternidade no seio da direcção. O conflito entre os dois líderes – Viriato e Neto – criou uma dinâmica negativa que iria conduzir à implosão do Movimento. Neto, eleito na 1ª Conferência Nacional, recusa-se a trabalhar com Viriato e afasta-o. Mário, um conciliador nato, não intervém na contenda. Foi um erro. Viriato rompe com a Direcção de Neto e de Mário, afasta-se arrastando consigo uma centena de militantes, os quais são acolhidos por Holden, embora esta união contra-natura nunca tenha realmente funcionado. O MPLA implode e é expulso do Congo. Dezenas de quadros procuram refúgio na Argélia, no Ghana, no Congo Brazzaville, em Marrocos… Mário, chocado com a criação da FDLA [Frente Democrática de Libertação de Angola] por Neto, sem ser consultado, afasta-se também e refugia-se em Argel, onde é recebido e apoiado pelo governo argelino, que lhe atribui um subsídio e uma bela vivenda em St Eugéne, à borda do Mediterrâneo.
Na sua travessia do deserto, por cerca de dez anos, passa-os rodeado pela sua família: sua mulher Sara, e as filhas Henda e Anouchka. Foi também apoiado e acarinhado por um círculo estreito de amigos exilados e excluídos como ele, dos quais destaco o médico e escritor Tomás Medeiros, que encontrou, em casa do Mário, o calor de uma família, tendo ali sido um interlocutor e colaborador muito escutado. Mário de Andrade manteve-se na presidência da CONCP, o que lhe permitiu realizar, em 1965, em Dar-es-Salam, a IIª Conferência dos movimentos nacionalistas. Eu fiz parte da delegação do MPLA que foi conduzida por Agostinho Neto. Fizemos a viagem pelo Cairo, o que nos foi proporcionado admirar as pirâmides num esplendoroso espectáculo de “som e luz”. Da sua vasta produção literária, como escritor e pensador, destaco três obras: O caderno “Poesia Negra de Expressão Portuguesa”; de 1953, editado primeiro em Lisboa e depois em Paris; a “Antologia de poesia negra de expressão portuguesa” de 1958, e, depois, em 1997, já depois do seu passamento físico, as “Origens do Nacionalismo Africano” editado pela Dom Quixote.
Mário de Andrade voltaria, no entanto, a juntar-se a Agostinho Neto, na Frente Leste, em 1971, num período de grandes dificuldades provocadas pela ofensiva do exército colonial. Mário apercebe-se, então, das insuficiências, lacunas e improvisações na direcção da luta de libertação, nas três frentes armadas distantes de milhares de quilómetros umas das outras. Associa-se com entusiasmo ao movimento de crítica e de contestação à condução da luta, lançado por Gentil Viana, recém-chegado da China Popular. Esse movimento, a “Revolta Activa”, mobilizou a maior parte dos quadros políticos na IIª Região Militar e pôs em risco a liderança de Agostinho Neto, numa altura em que eclodia, em Portugal, a Revolução dos Cravos, a qual modificou totalmente o contexto político português e angolano.
A “Revolta Activa” não tinha por objectivo retirar a liderança de Neto, mas, somente, o restabelecimento da democracia interna e a abertura a outras ideias. Criticava-se também a ancilose do pensamento político da direcção do MPLA. Este sobressalto salutar não conseguiu atingir os seus objectivos no Congresso de Lusaka. Pelo contrário, perante a intransigência das diferentes posições, Neto e seus colaboradores mais próximos retiram-se e, numa manobra brilhante e audaciosa, impõe a sua autoridade na Reunião Inter-Regional, já em território angolano, tornando-se o chefe incontestado do MPLA. Neto assina, então, a cessão das hostilidades com a delegação militar portuguesa dirigida pelo capitão Pezarat Correia e entra, triunfalmente, em Luanda, no dia 4 de Fevereiro de 1975, perante o delírio da população. Mário de Andrade, Gentil Viana e os seus amigos na “Revolta Activa” acabam por sair, de todo este processo, muito fragilizados e profundamente perturbados.
Volto a encontrar Mário, em Luanda, numa altura de enormes desequilíbrios sócio-políticos, em Luanda. Nada estava definido. Tivemos uma conversa – organizada por Djelloul Malaïka, chefe da delegação argelina – numa tentativa de conciliação de retorno da “Revolta Activa” às fileiras do MPLA, num contexto de grande conflitualidade com outras forças políticas. O apelo à unidade das forças progressistas não foi atendido por Mário, ele que era, por essência, um homem de compromisso e de diálogo. Só nos voltaríamos a ver meses depois, em Luanda, em Dezembro de 1975, em casa do médico Eduardo dos Santos. Tinha eu passado em visita, para tomar um copo e deparo-me com uma reunião de vários membros da “Revolta Activa”. As coisas estavam feias para eles e vivia-se um clima de medo. Transmiti-lhes, então, a informação de que iriam em breve ser detidos. Mário toma, então, a decisão de sair do seu país, graças ao seu passaporte argelino. Nunca mais regressaria vivo à sua terra tão amada, por quem dera todo o seu esforço, o melhor de si, durante toda a sua vida, numa luta incessante pela dignidade e liberdade do seu Povo, num permanente mal-entendido com Agostinho Neto. Qual o seu pecado? Ter ideias diferentes e tentar defendê-las, num quadro de autoritarismo.
Foi acolhido com honrarias e demonstrações de fraternidade e amizade pelos seus amigos Luís Cabral, na Guiné, e, mais tarde, por Marcelino dos Santos e Aquino de Bragança, em Maputo, onde lhe abriram as portas da Universidade Eduardo Mondlane.
Veio a falecer amargurado, desiludido e na mais profunda miséria, nunca tendo recebido, em vida, a nacionalidade angolana. Como eu viveu “sem papéis” e morreu.»

* Ph. D em Ciências da Educação e Mestre em Relações Interculturais

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