Memórias da Quarta-Feira das Mabangas

Luciano Rocha
20 de Abril, 2017

A “Quarta-Feira das Mabangas”, imediatamente a seguir à terça-feira de Carnaval, já foi dia assinalado a preceito em Luanda, mesmo sem nunca merecer essa menção nos calendários de pendurar na parede, entretanto caídos em desuso.

O lapso dos responsáveis pela feitura daqueles calendários - como dos das agendas de secretária, também elas praticamente desaparecidas - nunca impediu a celebração.  A iniciativa era promovida pelos grupos carnavalescos, cujos integrantes andavam por ruas, becos, “lojas de vender tudo” a pedir “a mabanga”. O objectivo era obter não apenas aquele bivalde,  como qualquer outra dádiva, que incluía  principalmente peixe, farinha musseque, mandioca, jinguba, dinheiro, vinho. Este, quase sempre “palhete” transportado de Portugal por barco em barris de aduelas. Muito raramente de garrafão de  vidro de cinco litros revestido de palha entrançada e rolha com capacete de gesso. Às vezes havia quem desse abafado. 
No fundo, era o epílogo dos três dias de Carnaval, com farras de quintal e desfiles dos grupos pelas ruas. Ainda sem classificações, muito menos júris, mas já com rivalidades e disputas acérrimas, cujo exemplo máximo foi porventura as vividas pelos da Cidrália, surgido em 1935, e o de Os Invejados, no ano seguinte.
O primeiro daqueles grupos ficou a dever o nome à personagem de um romance, que alguém leu e gostou. O outro, integrado por elementos acusados de “não terem maneiras” que retorquiram ao insulto, afirmando que o que motivava os que os insultavam era a inveja. Assim, nasceu Os Invejados.     
 Daquele tempo guardo somente memórias de estórias que mais velhos generosos me passaram, que encerravam sempre sofrimento, tristezas, raivas, medos. Disfarçados por momentos fugazes de alegria pintados com sons de ngomas, puítas, chocalhos, latas, dikanzas, vozes de comando de rebitas, tangos, rumbas e boleros. Dançados em quintais de terra batida. Borrifada, quando os desenhos feitos pelos passistas levantavam poeira vermelha e se misturava com o fumo das brasas onde nascia o mufete. 
Nos mesmos quintais de terra batida, com muros das aduelas de barril, onde se dançava, trocavam promessas de amor, saboreavam o peixe assado, acompanhado de feijão de azeite-palma, bombó, farinha musseque, debaixo da sombra de uma qualquer mandioqueira, também se idealizava a Pátria livre. E veio 4 de Fevereiro, a concretizar  o sonho. Como grito de revolta a dizer ao mundo  que os angolanos queriam ser donos do seu destino. E o regime colonial tremeu. E proibiu os desfiles de Carnaval. E tudo o que ainda não tinha proibido, que era tão pouco. E continuou a oprimir. E continuou a prender, desterrar, descriminar.  E continuou sem perceber que o fim lhe estava próximo. Que não há campos de concentração, grades, chicotes, bombas incendiárias que derrotem a tenacidade de um povo disposto a recuperar a dignidade roubada, a afirmar o orgulho da nacionalidade.
Hoje, o Carnaval de Luanda comemora-se livremente. Com desfiles públicos. Daquele tempo, de antes de Fevereiro de 1961, desfilaram este ano na Marginal  três grupos: União Kyela, surgido em 1947, Kaboco Meu, 1952, União 54, em 1954. A eles juntaram-se outros bem mais recentes. É no fundo, o espelho de Angola. A junção de gerações a fazer um país moderno, que se afirma no  mundo.
Da Cidrália e de Os Invejados restam-me -  a mim e aos da minha geração - memórias de estórias contadas na minha meninice por mais velhos generosos. Dizem-me, agora, os mais novos quanto à Quarta-Feira das Mabangas que “já nada era como dantes”. Não me admira. O progresso tem um preço. Não se pode ter tudo. Resta-me um dia destes encomendar um prato daquele bivalde grelhado num qualquer restaurante da Ilha. Dantes, apenas possível de saborear no dia seguinte à terça-feira de Carnaval.

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