Opinião

Meu pai, meu talismã

Adriano Mixinge

Ouvimo-lo a recontá-la uma vez mais, com luxo de detalhes aos seus doze filhos, no sábado último de manhã: neste ano, o patriarca da família Mixinge completará setenta e nove anos de idade. A história da vida dele atravessa toda a segunda metade do século XX e tem muito de romanesca, ou seja, é digna e inspira um romance biográfico, que não sei se alguma vez será escrito.

Depois de vê-lo calmo e sereno face aos vinte e quatro olhares que o rodeavam dei-me conta de que, afinal, ele é o nosso amuleto: a sua capacidade de superar contratempos, de distinguir o essencial do acessório, de umas vezes integrar-se ou de noutras afastar-se ou reinventar-se permitiu-lhe sair, literalmente, das cloacas da vida ao remanso de paz e felicidade que, hoje, ele admite estar a desfrutar, um sentimento que é contagiante.
Até aos dezoito anos de idade, nada fazia pressagiar que ele viveria a vida que viveu: entrou para a escola tarde, já depois de ter completado dez anos de idade, mas aprendeu tão bem a fazê-lo que o mais parecido a letra do meu pai são as belas caligrafias medievais. Mas,a caligrafia dele é muito melhor, é mais bela e ingeniosa: revela a destreza mental que o fez sobreviver e adaptar-se a todas as transformações científicas e técnicas que testemunhou.
Da caneta às antigas máquinas de escrever e delas aos teclados do telefone digital, a escrita salvou o meu pai e a educação e o conhecimento ajuda-
ram-lhe a fundar e a salvar a sua própria família: a diferença de muitos outros pais que permitiram tudo aos seus filhos, ele nunca nos permitiu fazer tudo que quiséssemos e, por isso, hoje sabemos fazer, sobretudo, aquilo que é necessário, o que se impõe. Ele soube sempre que só os estudos nos permitiriam evitar as agruras da vida.
Quando nos anos 60 do século passado, Sebastião Adão Mixinge, o meu pai saiu de Calumbunze, nos arredores de Catete e veio instalar-se em Luanda, o primeiro trabalho que, com um grupo de amigos, teve, foi como desentupidor de fossas. Desde aquela data, abomina das merdices não importa de quem for: afasta-se de tudo o que lhe cheira a impróprio, a indecoroso. É frequente vê-lo a pedir a todos os seus filhos que não tomem decisões precipitadas, que não façam escolhas que os façam ficarem como os bagres, no lodo:
- “Não poderão continuar a nadar nas zonas barrentas da vida, não sobreviverão se não souberem nadar em rios com suficiente profundidade e caudal” - diz ele persuasivo, nessa sua voz de ancião respeitado.
Desde que eu tenho memória, ao longo de mais de meio século, todas as vezes que eu estivesse sozinho e tivesse que tomar uma decisão, da mais simples à mais complicada, da mais normal à mais ousada, da mais conservadora à mais disruptiva, eu pensava no meu pai. Durante os trinta e dois anos que vivi longe da minha família intuir qual seria o significado que ele daria a minha decisão foi sempre a fronteira entre o permitido e o proibido: tive e continuo a ter muito medo de decepcioná-lo, mas, ainda bem que noto que ele aprendeu a valorizar uma vida em torno da arte, da literatura, das ideias, da política e da cultura de alguns dos seus filhos.
Quando éramos mais pequenos, ele tinha a mão pesada e isso provocou que, não importa onde estivéssemos, o susto permanecesse em nós como um alerta: com os anos, aquela mão pesada foi-se tornando uma mão amiga, com o tempo o seu olhar severo tornou-se terno e protector, com as circunstâncias da vida ele foi-se tornando mais sábio e com um pragmatismo próprio de um sobrevivente, com uma constância de quem sabe o quanto custou-lhe estar onde está e ser o que, porventura, ele hoje é.
Não sei se algum dia conseguirei escrever a história da vida de Sebastião Adão Mixinge, meu pai, meu talismã. Uma vez que não haverá um modo de agradecer-lhes suficientemente, quero que os meus filhos e vocês o saibam e enquanto eu viver não me cansarei de repeti-lo: hoje não tenho absolutamente dúvida nenhuma, tudo o que eu sou é fruto da magia e do empenho dos meus pais, principalmente nos meus primeiros onze anos de idade. Independentemente de tê-los perto ou não, a vida me tem demonstrado que sempre fui e sou mais filho dos meus pais do que filho do meu destino e das minhas circunstâncias.

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