Opinião

MPLA entre a combinação perfeita e o espectro de implosão

Faustino Henrique

Depois de a UNITA, o maior partido da oposição, decidir-se pela manutenção de Isaías Samakuva como presidente do partido até 2019, facto que proporcionou mais perguntas que respostas, as atenções tendem a virar-se agora para o partido no poder. O futuro imediato do MPLA, no que à sucessão da sua liderança diz respeito, vai ser tema recorrente no cenário político angolano, sobretudo a julgar pela ausência de "timings" precisos na efectivação de algumas variáveis.

E é completamente natural que as atenções tendam a virar-se para o MPLA, a julgar por vários factores, dos quais sobressai a promessa do seu presidente, José Eduardo dos Santos, de abandonar a vida política activa em 2018.
Embora o seu porta-voz tenha vindo a público defender que "há uma combinação perfeita. Uma orquestra sinfónica, em que o maestro da orquestra está a comandar a mesma por forma que o processo seja certo e consequente", referindo-se à relação entre a direcção do partido e a condução dos destinos do país, na verdade, cresce um rol de interpretações  contrárias. Cada vez mais vozes se juntam para contrariar essa experiência inédita por que passa o partido no poder, numa altura em que o assunto da sucessão na liderança do partido, a indicação do sucessor, data do congresso, apenas para mencionar estes "dossiers", deviam estar já devidamente agendados. Os grandes partidos caracterizam-se também pela sua agenda, no curto, médio e longo prazos, devidamente alinhavada, inclusive para a estabilidade interna e a garantia da confiança.
O fim de ano está à  porta e independentemente de 2018 ter mais de 300 dias, a ausência de informações sobre os itens mencionados, pode aumentar a pressão para que o partido no poder dê amostras da "coesão inimaginável" na gestão do cumprimento da promessa por parte do seu líder.
Não seria necessário esperar pela chegada do ano de 2018 para os devidos esclarecimentos sobre o futuro imediato do partido no poder, no que à sucessão na liderança diz respeito,  nem parece fazer sentido a inexistência de esclarecimentos sobre a gestão do processo que se segue, a sucessão na liderança do partido.
A actual situação, caracterizada pelo que alguns sectores chamam de "bicefalia", publicamente já contrariada por vozes insuspeitas ligadas ao MPLA, tais como Lopo do Nascimento e Ambrósio Lukoki, deve ser encarada com seriedade  e obriga a clarificações.
No Estatuto do MPLA, com a data de 2009, provavelmente ainda em vigor,  o número um do seu artigo 20 estatui que "o militante pode renunciar à sua condição ou cargo a que tenha sido designado pelo partido, mediante carta dirigida à organização de base, ao órgão ou organismo a que pertença, não constituíndo isso uma infracção".
Numa altura em que não é ainda pública a data de realização do congresso extraordinário e nem se sabe em que quadro o líder do partido "vai abandonar a vida política activa em 2018",  acentuam-se leituras que não ajudam o próprio o MPLA.
Se por um lado já se pode dar como adquirida a saída do líder do partido no próximo ano, de acordo com a promessa feita, seria preferível que ficasse igualmente clara a sucessão. Afinal, não parece justificável a gestão do silêncio que se faz em torno da data do congresso sob pena de o vazio de esclarecimento dar vazão a toda a sorte de especulações e leituras que tendem a prejudicar mais que beneficiar. O pior que se pode depreender do actual quadro, de aparente indefinição do futuro imediato do partido no poder, é a possibilidade, ainda que remota, de indícios de implosão no seio do MPLA.
A fórmula do ANC em que, em sentido inverso, o Presidente da República, Jacob Zuma, foi rendido na liderança do partido pelo seu Vice-Presidente, Cyril Ramaphosa, pode servir, ao menos, para reflexão por parte das "cabeças pensantes" dentro do MPLA. O actual momento de abertura, de promoção do pluralismo de ideias, discussão aberta dos problemas e desafios por que passam os partidos não se compadece com a gestão dos silêncios e do vazio de esclarecimentos.
A sucessão nos partidos políticos com responsabilidades acrescidas não precisa de ficar no segredo dos deuses, como se de alguma arma secreta para os negócios se tratasse ou se os prejuízos seriam enormes com uma eventual explicação. Não é exagerado esperar que o MPLA, ao contrário da decisão da direcção UNITA que levantou mais inquietações do que satisfações, faça uma gestão do processo de sucessão do seu líder que não leve a fracturas internas. É verdade  que não existem partidos completamente coesos, na medida em que várias cabeças não podem pensar exactamente as mesmas coisas, mas o futuro imediato do partido deve ser definido com medidas que afugentem o espectro de implosão.

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