Opinião

Mudanças, sim, "revolução", não

João Melo |

A campanha eleitoral começou. Salta à vista uma particularidade: todos os partidos concorrentes, inclusive o partido no poder há 42 anos, empunham a bandeira das mudanças.

O que estará em jogo no próximo dia 23 de Agosto, por conseguinte, serão diferentes estratégias de mudança. Obviamente, também, os objectivos a alcançar com tais mudanças pelos partidos concorrentes serão opostos. Caberá aos eleitores decidir que tipo de mudanças pretendem e em que forças confiam para efectivá-las.
Pessoalmente, não tenho dúvidas: a maioria dos angolanos quer, sobretudo, mudanças no plano económico e social, que se traduzam na melhoria das suas condições de vida; uma parte importante da sociedade, em especial entre as camadas urbanas, mais jovens e escolarizadas, assim como entre os intelectuais, reclamam igualmente mudanças de natureza política, mas a minha percepção é que a expectativa dominante é que tais mudanças impliquem novas práticas e não necessariamente uma alteração radical de rumo político. Ou seja, salvo alguns “fundamentalistas” e “incendiários”, a maior parte dos angolanos quer mudanças, sim, mas que não ponham em causa a estabilidade nacional. Poucos querem ver o país transformado numa Líbia, num Mali, numa RCA ou numa RDC. Que partido pode, pois, fazer as mudanças reclamadas pela sociedade angolana e, ao mesmo tempo, preservar a estabilidade?
Comecemos pela oposição. Na minha opinião, nenhuma das duas forças oposicionistas com maiores possibilidades eleitorais, a UNITA e a CASA, tem condições de levar a cabo as mudanças positivas que a sociedade aguarda e, muito menos, garantir a estabilidade necessária para que tais mudanças signifiquem avanço e não recuo.
Desde logo, as duas têm um problema comum: não possuem quadros qualificados suficientes para governar, como, aliás, elas próprias o reconhecem, quando avançam a sua proposta de um governo “inclusivo” (o que tem de ser inclusivo são as políticas e as medidas e não forçosamente os governos...). Mas, mesmo que, hipoteticamente, uma dessas duas forças chegasse ao poder, que tipo de mudanças empreenderia?
O facto de a UNITA continuar a recusar-se a pedir desculpas aos angolanos pela retomada da guerra em 1992, mantendo-se, por outro lado, prisioneira do Programa de Muangai, que preconiza a criação de uma “República socialista negra africana”, diz tudo sobre o tipo de mudanças que implantaria, se ganhasse as eleições. Tenho insistido nisso em todas as eleições, mas a responsabilidade não é minha: é da UNITA, que não muda.
Quanto à CASA, o seu líder também ainda não se desculpou por ter ameaçado “somalizar” Angola, o que legitima todas as desconfianças em relação às suas genuínas intenções. Por outro lado, aquela é um “saco de gatos” tão óbvio, que é difícil imaginar o país governado por essa coligação esdrúxula.
De um modo geral, a oposição quer “mudar tudo”, para, conforme o ultrapassado ensinamento maoísta, “construir de novo”. As intenções “revolucionárias” da oposição são confirmadas pelo deputado da UNITA Fernando Heitor, numa entrevista publicada este mês pela revista ÁFRICA21 e cuja leitura recomendo.
Resta o partido no poder. Com a sua longa experiência histórica, política e administrativa, a sua comprovada capacidade de adaptação e os quadros de que dispõe, o MPLA é o único capaz de realizar as mudanças exigidas pela sociedade, sem pôr em causa a estabilidade do país. A sua imensa base social reclama por mudanças a vários níveis, estando disposta a apoiar o seu candidato a realizá-las.

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