Opinião

Mugabe: o herói e o anti-herói

Adebayo Vunge

O ex-Presidente Robert Mugabe é um ícone incontornável da libertação de África do jugo colonial, em especial do Zimbabwe, que foi um dos últimos países africanos a conhecer a independência. Depois deles só mesmo a Namíbia e a África do Sul – a Eritréia e o Sudão do Sul são outra história. Ele e o seu companheiro Joshua Nkomo, mesmo se depois o destino os desuniu, bateram-se largamente contra os supremacistas brancos ingleses e sul-africanos para que o seu país se tornasse independente, não obstante a saia justa que foram os acordos de Lancaster House, assinados com os ingleses em 1979.

E com isso, foi logo no começo dos anos oitenta que ele assumiu o poder, inicialmente como primeiro-ministro e posteriormente como Presidente da República. O que quer dizer que o Zimbabwe teve a soberana vantagem de corrigir os erros históricos que os outros países africanos vinham conhecendo até então, fruto de uma multidão de factores exógenos e endógenos na descolonização e a gestão dos primeiros anos de independência.
Mugabe era então um negociador hábil e eloquente. Mas a deriva de Mugabe começou vinte anos depois. Exactamente em 2000, quando lançou a sua polémica e rejeitada reforma agrária, confiscando as parcelas de terras dos latifundiários brancos para os negros, muitos deles sem qualquer savoir faire nesta matéria. O país que era então o celeiro de África, em matéria de produção agropecuária, tornou-se num Estado dependente da ajuda externa para alimentar alguns segmentos da sua própria população, com sucessivos episódios de fome, fruto de uma admirável crise económica. Os resultados da reforma agrária foram desastrosos. Os que lhe são próximos, acusam sobretudo a Inglaterra por esta ter recusado a reforma e o acordo anterior.
Muitos zimbabueanos abandonaram nessa altura o seu país. Uns foram para os Estados Unidos, outros para a Inglaterra, mas a maioria “fugiu” à crise económica e política provocada por Mugabe e rumou para a África do Sul, onde ficaram conhecidos por ser os principais empregados da restauração, do comércio e taxistas. São vistos como mais afáveis que os autóctenes sul-africanos e foi com eles que sucedeu o primeiro episódio dos vergonhosos ataques xenófobos que se registam na África do Sul.
Rejeitado e quase isolado, começou também a endurecer no campo político e dos direitos humanos. Robert Mugabe lidou mal com as transformações que o país precisava. Recusou então os resultados eleitorais, impondo a sua versão dos mesmos, o que lhe manteve no poder em regime de partilha. E instaurou a perseguição política aos seus opositores. Tsivangirai e seus apoiantes foram molestados.
A autodestruição de Robert Mugabe faz lembrar, em grande medida, a destruição do Congo desde que Mobutu ascendeu ao poder. Os seus “anos de glória”, na década de 70, foram seguidos de um declínio sem precedentes. Também o sistema de ensino caiu e a Universidade de Lumbumbashi que era uma referência, deixou de constar nos melhores lugares do ranking. Com Mugabe sucedeu o mesmo. Não soube assim evitar os erros da história. Pelo contrário, trilhou um caminho que descaracterizou o seu legado. O libertador tornou-se um tirano, com obsessão pelo poder, acreditando para si que era o único dotado para governar o seu País. Nem mesmo entre os seus correlegionários encontrava um sucessor. Abjecto e sem lucidez, ainda equacionou colocar a sua mulher, no poder, para o suceder. O herói tornou-se, em definitivo, o seu próprio anti-herói. Em política também é importante fazer cedências.
Robert Mugabe era também conhecido pela sua elevada formação académica e como um professor na sua juventude, exilado no Ghana. Fruto disso ou não, o Zimbabwe tinha, nos primeiros anos da sua independência, um sistema de ensino funcional e de referência. De Angola, por exemplo, partiram centenas de estudantes que frequentaram o ensino médio e universitário em Harare, em alternativa mais económica aos preços da África do Sul, que se abria então para a circulação africana e os velhos países da Europa e Estados Unidos da América.
Facilmente notamos que o sistema de ensino é o pilar das mudanças e um bom reflexo da sociedade. A corrosão do seu sistema acompanhou a precariedade que se instalou. Em sentido absolutamente contrário encontram-se países como o Ruanda e Marrocos que têm feito acompanhar o seu progresso com melhorias assinaláveis no sistema de ensino, pesquisa e inovação.
Também aqui várias vozes têm chamado a atenção para este aspecto, levantando o véu sobre um sistema de ensino com um conjunto de ineficiências e falta de qualidade que é urgente corrigir. Por isso, à notícia tímida sobre uma “nova reforma educativa” a partir de 2020 deveria merecer cobertura e espaço para maior discussão da sociedade. Que tipo de ensino queremos. Precisamos correr na medida em que o investimento público em infraestruturas deve ser acompanhado de maior rigor e qualidade nos conteúdos, nos meios e na avaliação. Quando olhamos para a viragem do centro de gravidade do ocidente para a Ásia, não podemos ignorar o que eles têm feito em matéria de educação, grau de competitividade dos próprios estudantes e trabalhadores.
Incrivelmente, Mugabe é hoje o anti-herói que não deixa saudades, não obstante o seu legado para o País nos primeiros anos da sua carreira política. O bom senso ditou que o Zimbabwe não derivasse para mais uma tragédia. Um homem e muitas contradições.

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