Opinião

Muitas lembranças aos sicários da Guerra das Malvinas

Luis Alberto Ferreira

Gabriel Garcia Márquez, o Nobel colombiano, revelou-nos certo dia um infortúnio remanescente da miserável Guerra das Malvinas. O de um pobre soldado argentino, sobrevivente, como outros, mas para sempre marcado pela tragédia vivida nas chamadas, pelos britânicos, Falklands.

O soldado argentino, regressado à sua província natal de Buenos Aires, pegou num telefone público e deu à progenitora a suposta boa nova: “Minha mãe, cheguei.” Lavada em lágrimas emocionais, a mãe escutou, a seguir, do filho, a seguinte explicação: “Eu tenho comigo um companheiro, também soldado, que sofreu na guerra a amputação das duas pernas. E ele, coitado, minha mãe, não tem para onde ir. Posso levá-lo aí para a nossa casa?” Reacção imediata da senhora: “Que horror, meu filho! Termos aqui em casa uma pessoa nesse estado? A lembrar-nos o horror que foi essa maldita guerra com os malditos ingleses? Nem pensar, meu filho! O teu colega que tenha paciência e busque outro sítio!” Afinal, contava por fim o emocionado Gabriel Garcia Márquez (que conheci, em pessoa, no México), quem de facto tinha as pernas amputadas era o próprio filho da tão “sensível” senhora. Que logo ali ficou a saber em que circunstâncias de convívio iria ou poderia ele coabitar, de novo, com a mãe. Ao cabo dos 35 anos decorridos, até hoje, na sequência da Guerra das Malvinas (1982), por atribuir e assumir continuam muitas das responsabilidades políticas e humanas. Muitos criminosos latino-americanos, em particular os sul-americanos, foram “galardoados” com “perdões” e ”esquecimentos de plástico”. Tanto que a última Constituição do Chile aprovada pelo genocida Alberto Pinochet continua, hoje, a sua navegação a todo o pano. Os chilenos destes dias, lestos a condenar o uso de 11 milhões dos cofres do Estado para financiar a próxima visita do Papa, são os que sustentam a franja social de quase 60 por cento da abstenção em jornadas eleitorais! Se, por um lado, o episódio rememorativo da Guerra das Malvinas narrado por Gabriel Garcia Márquez é inseparável da memória colectiva dos argentinos, depara-se-nos, por outro, a crueldade dos militares britânicos. E as motivações políticas de repugnante oportunismo de Londres e Buenos Aires. O soldado inglês Tony Banks tinha 20 anos quando o despacharam para a Guerra das Malvinas. Mais tarde, recordava ele: “Eu pertencia ao Regimento de Paraquedistas. Aquilo foi como na Primeira Guerra Mundial. Depois do lançamento de granadas sobre as trincheiras inimigas, caíamos de rompante sobre os pobres soldados argentinos. Lutámos corpo-a-corpo limpando com as baionetas trincheiras de soldados argentinos que, chorando, com graves queimaduras, agonizavam chamando pelas mães! Mas era a guerra, as guerras são assim…” Pior. Os soldados argentinos haviam sido recrutados pela Junta Militar do fascista Leopoldo Galtieri nas províncias mais pobres do “país das pampas”. Clamoroso, nas Malvinas, o grau da impreparação militar desses infelizes. Além de que eram maltratados e humilhados pelos seus superiores da Marinha e do Exército. Agora que se faz um balanço relativo da tragédia ou ignomínia da Guerra das Malvinas, acontece na Argentina mais uma iniciativa ignóbil do Governo de Maurício Macri. O criminoso Miguel Etchecolatz, antigo “director de investigações” da Polícia de Buenos Aires, torturador, repressor e assassino condenado a várias penas de prisão perpétua, acaba de ser “mimoseado” com o regime edulcorante de “prisão domiciliária”. Uma “prenda” mais ou menos demoníaca de Maurício Macri e dos tribunais mobilizados para a judicialização da política contra os blocos opositores encabeçados pela hoje senadora Cristina Fernández de Kirchner. Repete-se, decorrido menos de um mês, a desvergonha ocorrida no Perú: libertação, sob falsas “razões de saúde”, do genocida Alberto Fujimori. Um brinde do actual presidente, Pablo Pedro Kuczynski, acossado pelos efeitos judiciais do chamado “escândalo da Odbrecht”
Pablo Pedro Kuczynski esbraceja, em desespero, para safar-se da acusação de ter recebido “luvas” milionárias da conhecida construtora brasileira. Além de “político”, como o homólogo argentino Maurício Macri, este flébil Pablo Pedro Kuczynski é também empresário tentacular. E possui larga experiência de negócios e negociatas com multinacionais de raiz norte-americana. O manobrismo do argentino Maurício Macri a ninguém surpreende. A “escola” conceptual e as ferramentas ideológicas do regime argentino em muito pouco diferem das que preponderaram, a ferro e fogo, nos tempos do terrorismo oficial da Junta Militar ou do “Presidente” civil Carlos Menem. Por inerência conjuntural, não haveria grande distância entre os parâmetros gerais de Londres e Buenos Aires, quando as duas partes manipularam a seu bel-prazer e sem piedade as respectivas “circunstâncias do momento”. No epicentro, a Guerra das Malvinas.
Em Abril de 1982, a Junta Militar vivia o esgotamento do seu “modelo”, o caricato “Processo de Reorganização Social” (1976/1983). A Argentina quase agonizava: dívida externa descomunal, inflação cruenta, recessão, classe média empobrecida.
Uma “saída miraculosa” saltou da cabeça granítica do brigadeiro Basílio Dozo, membro da Junta, que a vendeu a Galtieri: Invadir as Malvinas, recuperar sobre elas a “soberania” e inflamar de “patriotismo” a Argentina. Resultado: Um desastre apocalíptico face à poderosa Armada Britânica. E a senhora Margaret Thatcher e o seu Partido Conservador, na mesma altura, 1982, de rastos também, com uma situação económica aflitiva, greves nas minas de carvão, desgaste imagético da própria Thatcher e o seu Executivo, inquietação nas chefias da Marinha - avançavam os planos governamentais de redução da frota de guerra no contexto da Guerra Fria. Solução: Réplica em força (desmedida) ao desembarque dos argentinos nas Malvinas. A mola axial, as Malvinas, a servir, pois, em simultâneo, as “razões”, nada bondosas, nada inocentes, das duas partes “atlânticas”. O Brexit é o tem-te-não-caias, com a Europa a tremer. E a libertação de Etchecolatz, sicário ideológico, assassino de mulheres e caçador de bébés, resulta em mais um dos troféus macabros da Argentina timonada por Maurício Macri. A ONU e o TPI, impotentes, lamentam…

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