Opinião

Muro de Berlim: Uma nova versão em arame farpado

Santos Vilola

O que delimita as Coreias do Norte e do Sul é uma fronteira armada que resulta da guerra fria, propriamente de 1953. O único local de passagem entre os dois países tem três casas azuis, do lado da Coreia do Sul, e um edifício em concreto armado, do lado da Coreia do Norte.

Os guardas de fronteira observam-se mutuamente a cada segundo a poucos metros de distância. Cada movimento é estudado e cauteloso. É firme e feito sob o olhar atento do adversário. Entre os episódios mais recentes na fronteira mais vigiada do Mundo é a recente fuga, com sucesso, de um soldado norte-coreano, de baixo de fogo, em direcção à Coreia do Sul, ocidentalizada, onde é possível beber uma Coca-Cola e comer um frango assado sozinho, conta ao telefone um jovem norte-coreano ao seu amigo em Pyong Yang, num documentário televisivo, depois de conseguir fugir para o país vizinho.
Antes da cena da fuga do soldado norte-coreano, há uma outra de provocação protagonizada na fronteira pelos norte-coreanos em forma de poluição sonora com recurso a altifalantes gigantes que tocavam música sem parar. O arame farpado na fronteira comum é a nova versão do Muro de Berlim, que separava a Alemanha Federal da Democrática.
Os mais entendidos na matéria, aqueles que acompanham de perto a evolução do conflito entre os dois países, dizem que hoje estamos num período mais instável do que aquele que a Coreia do Norte conheceu em 1953. E porquê? Há uma sensação de que todas as capacidades militares daquele regime fechado têm hoje mais hipóteses de serem usadas como nunca foram.
Foi a guerra no Iraque dirigida pela Administração George W. Bush que fez Kim Yong-il reforçar o poderio militar da Coreia do Norte. A queda do Muro de Berlim alterou a geopolítica mundial e regimes políticos, mas a Coreia do Norte não mudou. Bush tinha colocado o país no famoso “Eixo do mal”, esgotando toda a possibilidade de diálogo iniciado com Bill Clinton, que chegou a enviar a Pyong Yang Madeleine Albright, primeiro, e depois ele mesmo esteve lá, em 2009.
Os norte-coreanos passaram a ter um exército de mais de um milhão de soldados, entre os quais cem mil pertencentes às forças especiais. Cerca de 70 por cento  do exército está hoje a menos de 100 quilómetros da fronteira com a Coreia do Sul. Os norte-coreanos acreditam que, para terem influência no Mundo, para poderem “sacar” ajuda do estrangeiro, têm de parecer perigosos e que, para parecerem perigosos, para serem levados a sério, nada melhor do que desenvolverem uma arma nuclear. A Coreia do Norte já pensava na arma nuclear nos anos 1950. Mas agora é a sua prioridade absoluta.
No dia 9 de Outubro de 2006, aquela “famosa” âncora dos noticiários da televisão nacional norte-coreana, que lê sempre os textos quase em lágrimas de emoção quando se trata de um “anúncio bombástico” do grande líder, dificilmente controlava a sua emoção ao dar conta de um “grande progresso científico graças ao comunismo”. O teste de uma arma nuclear tinha sido feito com êxito. Os cientistas daquele país tinham detonado uma arma nuclear. Era a celebração do conhecimento e da experiência científica do país. Até construíram um complexo afim.
Mas as promessas feitas hoje pela Coreia do Norte de enviar uma bomba nuclear aos Estado Unidos são apenas respostas às ameaças feitas pelos EUA, há décadas, de “exterminar” aquele povo com recurso a uma arma nuclear. Até hoje, eles não esqueceram que Douglas McArtur defendia o uso da arma nuclear contra os norte-coreanos, e convivem com esta ameaça. Foram educados sob esta ameaça. E levam muito a sério esta ameaça.
Mas os norte-coreanos têm na mente que os Estados Unidos até hoje nunca atacaram um país que tivesse arma nuclear. Por isso, estão seguros com a “nuke” deles e desenvolvem-na com muito gosto. É um poder para persuadir numa mesa de negociações: “Se não querem, vou explodir a bomba! Não! Ok. Vamos negociar!”. Têm ogivas nucleares e mísseis balísticos capazes de arrasar uma cidade dos EUA por inteiro.
No dia 10 de Outubro de 2010, em meio à necessidade de acautelar a transição política, Kim Yong-il (pai) coloca Kim Yong-un (filho) ao seu lado na tribuna da mais importante parada militar da história do país. Cem mil homens marchavam para celebrar o 65.º aniversário do Partido dos Trabalhadores. Mas o que estava em causa era a chegada de um novo líder - Kim Yong-un. O filho só está a renovar as promessas e anseios do pai na mais longa dinastia familiar no poder.



Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia