Opinião

Mussongo

António Cruz

Ontem vi, no Facebook, a imagem do Mussongo. Trocámos mensagens. Fiquei feliz por ele estar bem de saúde. Avistámo-nos pela última vez, nos anos 80, por altura do movimento migratório de muitos jovens angolanos para Lisboa, para trabalhar nas obras de construção civil.


Nessa aventura, muitos se deram bem e enviaram para Luanda arcas frigoríficas e aparelhagens de som de grande potência. Outros, como o Man Zaras, não tiveram a mesma sorte. Não aguentaram o peso do labor na construção e regressaram ao país. Mas não revelaram o sofrimento vivido pelos compatriotas, temendo represálias pela exposição da vergonha alheia. Eram obrigados, inclusive, a trazer fotos dos amigos, trajados de roupas de marca, para mostrarem uma vida de fartura na diáspora.
Do ténis de parede, do repouso da coluna vertebral no vértice fresco da calçada e das viagens à Kilandó, não se podia falar. Era negócio proibido. O acordo era  não deixar as mamôites da banda preocupadas com o sofrimento dos filhos migrados em busca de vida melhor na Tuga. Uma vida não conseguida por um grande número de jovens, cuja vivência em terras de Camões ficou reduzida a barracas de bebida destilada, celas de presídio ou terminou em repatriamento para Luanda, Angola, como aconteceu com Zé e Creta.
Virados pela vida fácil, com o primeiro salário, passaram a viver como fidalgos. Maçãs, vinhos verdes e vida mulata. Roupas de marca e miúdas de invejar o criador. Deixaram de trabalhar e enveredaram pelo negócio da droga. Um acabou preso, sucumbindo na cadeia, numa briga com um companheiro de cela, outro, repatriado para a banda, sem bagagem. Só com a roupa que tinha no corpo.
Justificava o regresso no facto de necessitar de renovar a documentação por causa de um emprego novo, mais decente, na Tuga. Mas nunca regressou. Tornou-se cliente preferencial de uma casa de venda de bebida caseira, no Cazenga. Inventou a história, já virada refrão, de que “nas bandas, quando você vai na cuzuéira, te picam uma injecção para ficares tárla e nunca mais voltares lá. Tua vida passa a ser somente muita chiba. Tipo te venderam no maiombola”.
Daí a minha grande alegria por voltar a estabelecer contacto com o meu grande amigo de infância. Mussongo era, pelo menos naquele tempo, bom em tudo o que fazia e em que se metia. Por isso era bastante solicitado por todos.
Na bola, era um astro. Dava-se ao luxo de desafiar, sozinho, uma equipa inteira de 11 jogadores de futebol. Satisfazia-se com a aplicação de umas quantas fintas ao adversário e o problema ficava resolvido. Não importava o resultado, bastava a humilhação. Nas lutas, então, nem se fala. Em todas as pelejas do bairro, Mussongo era chamado para dar solução e saía-se sempre bem. Tinha fama de bom lutador. Quando não houvesse motivo para as brigas, criava-as ele próprio. Os óbitos dos Malaguetas, como dizia, eram sempre boas alternativas, pois nunca viravam costas à luta. Não costumavam levar desaforo para casa e reagiam, sempre, energicamente, para nosso gáudio. Num ápice, o ambiente ficava criado. Quedas, baçulas e capangas saíam com grande simplicidade.
“Como é, meu? - dizia Mussongo - não estamos a fazer nada. Baza mbora insultar no óbito dos malanginos, para nos darem corrida”. Mussongo tinha sempre muito boas ideias e todos o seguíamos, com grande interesse. Sentíamo-nos protegidos ao seu lado.
Mussongo apenas evitava meter-se com “Quibalenses”, porque a experiência com uma família da zona do Sete e Meio, no município do Cazenga, não foi muito agradável. “As lutas com aqueles povos não acaba”, dizia. “No dia em que me agarraram, tinha lá dois cambutas bem rijos, todos farruscos parece banharam com fuba, uí, só queriam me bater na cara e me pôr gindungo no olho. Quando cheguei a casa, parecia que me tinham atropelado num camião”, contava.
Mussongo está bem e feliz, o que nos agrada bastante. Conseguiu um emprego melhor e constituiu família. Deixou para trás as traquinices marcantes de outro tempo, histórias para matar a saudade e embalar os nossos filhos.

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