Opinião

Na complacência dum amor insolvente

Salas Neto

Nos tempos, quando fosse ao Panguila, para controlar o chimbeco de campo que lá tenho, também dava sempre um pulo até à Barra do Dande, com três propósitos fundamentais: esticar o pululo, comprar peixe fresco e espairecer um bocado com a mãe-grande nas barracas de comes e bebes montadas logo à entrada dessa circunscrição do Bengo, onde os preços eram bem puxados, acho que por causa dos tugas que lá iam embrulhar umas lagostas à mwangolé.

Eu sou bué azarado: quase todas as coisas com que estilo são também gostadas, se dissesse invejadas se calhar daria no mesmo, por muitos marcianos. Assuntos de garotas à parte, dizer que, por exemplo, tem havido gajos descarados na “Placa dos Traiçoeiros” que chegam a se “dividir” a farrapa do cidadão na minha presença, é o Ti Perdido que cobiça aquela Levy Strauss, é o Chico Groi que ambiciona o único “xutos e pontapés” da Sanjo que ainda existe no mundo, modéstia à parte, é o puto Obama que não desarma da minha avermelhada Lacoste preferida, enfim. Desconfio que, por uma certa atrapalhação com o meu feeling, chega a haver algum empolamento em relação ao recheio do meu guarda-roupa. Por exemplo, uso uns chinelos de borracha assim da pimpa, que o Kaleba. No entanto, não se cansa de inventar que são da Gucci, só porque os trouxe da última vez que estive na Mukueba, no ano passado. E pelo que sei a Mana Creuza pagou menos de cinco Euros por eles numa loja de bijuterias duns chinocas lá em Cruz de Pau, devendo assim estarem muito longe de ser um produto daquela griff italiana.
Ora, diante duma perseguição do género, já nem me espantei quando o Lídio Pereira, um amigo novo que lhe apanhei sei lá aonde, no ano passado, começou a se meter comigo, assim que lhe revelei que tinha o tal chimbeco de campo no Panguila, numa daquelas urbanizações folclóricas que os chinocas passaram a construir, mal e porcamente, para o Estado ir desterrando o pessoal que enxotava de terrenos cobiçados no centro da cidade, na Ilha do Cabo e nas barrocas do Miramar. “Como é que o Estado nunca me deu casa, mas você tipo já apanhastes duas ou três? És um marimbondo fingido mazé!”, sabulou o invejoso, com ares de quem estava mesmo zangado. “Fecha lá a matraca, que não sabes o que dizes!”, fingi xinguilar, antes de cortar a conversa aí mesmo, até porque o verdadeiro assunto nem é esse. Como ia dizendo, quem me vendia o peixe fresco era o Fernandinho, um gajo bem entroncado, aí duns 40 e poucos. As nossas conversas acabaram por ir além do peixe. É assim que fiquei a saber que até então o homem nunca tivera tido uma garina fixa no chalé, revelando porém que queria amigar a bem ou a mal com a Felizarda, a única gaja da zona que lhe tirava o sono, ainda que já estivesse meio-comprometida, digamos. E quem era a Felizarda?
Precisamente a moça que ajudava na barraca que eu mais frequentava, já não me lembro se da Belita ou da Guidocha. Cagunfado, confessou que não sabia como avançar o assunto duma vez por todas diante da pretendida caralmente, como diria o Luciano Canhanga.
Sem querer, acabei por me meter nas conversas: fui eu quem passou a limpo o rascunho da carta a enviar à Felizarda, além de ter sido o portador. “Bom-dia, Mana Felizarda. Minhas sinceras desculpas, mas vou entrar direitamente no assunto. Te digo que tens de provar a condensação desse amor plutônico que ferve dentro de mim, para saberes qual a insolvência dessa paixão imponderável que espera tão-somente pela tua devoração. Se atrasas mais dias, te juro que eu não vou conseguir controlar o que me compete dentro dessa relação que nunca mais avança, através das tuas oscilações. Qual é a nossa combinação? Deixa esse bicho do Man Manico, que nem sabe te dar um aproveitamento insidioso da tua boniteza, sem contar com os pontapés que os vizinhos me denunciaram que ele te porradeia semanalmente. Tens de sengar desse matumbo enquanto é cedo, antes que te escangalham só o teu visual. Se é as caxas de conchas e o saco de arroz que está a te iludir, isso não é tudo na vida. Conchas você encontras nos mamadus aos pontapés, não um amor sinceiro e completo como este que eu dedico a ti Mana Felizarda. O pouco com jeito é muito. Se estás com receio, te confeço que eu não sou homem de levar a mesa e deixar as cadeiras. Porquanto, podes trazer os miúdos todos, vamos se ajeitar mesmo assim lá em casa. Aguardo resposta urgente. Bejos. Sempre Fernandinho”.
Como nunca mais fui à Barra do Dande, até hoje não sei qual foi o desfecho da investida do meu amigo pescador, cujo rascunho acabei de partilhar convosco. No entanto, desconfio que o gajo não deve se ter dado lá muito bem, embora pareça incrível que alguém com um mínimo de juízo possa cometer a asneira de resistir a uma proposta de amigamento tão favorável como essa. Há tempos, na rubrica “Chamada do Amor” do programa da tarde da Rádio Luanda, na altura com a Érica Fernandes, ligava quase sempre um ouvinte chato a pedir para que ela intercedesse por ele num caso amoroso seu que parecia estar complicado. Ele apresentava-se como sendo o «Fernandinho, da Barra do Dande». Será mera coincidência ou é mesmo o meu amigo pescador, o pretendente da Felizarda?
Olha, confessando a minha pura verdade, não sei. E eu nem mais o número dele tenho.

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