Opinião

Nação e partidos

Manuel Rui

“Por nação entende-se uma comunidade estável, historicamente constituída por vontade própria de um agregado de indivíduos, com base num território, numa língua e com aspirações materiais e espirituais comuns. Ou o conjunto de pessoas, geralmente do mesmo grupo étnico, falando o mesmo idioma e tendo os mesmos costumes, formando assim, um povo, cujos elementos componentes trazem consigo as mesmas características étnicas e se mantém unidos pelos hábitos, tradições, religião, língua e consciência social.

Mas verdadeiramente, território, língua, religião, costumes e tradição, por si sós, são elementos secundários e não constituem o carácter de uma nação. O elemento dominante, que se mostra condição subjectiva para a evidência de uma nação assenta no vínculo que une as pessoas, determinando entre eles a convicção de um querer viver colectivo. É, assim, a consciência da sua nacionalidade, em virtude da qual se sentem constituindo um organismo ou agrupamento, distinto de qualquer outro, com vida própria, interesses e necessidades peculiares.”
Assim, a nação não se anula quando fraccionada entre vários estados ou porque várias nações se unem para constituírem um estado que já é uma forma política.
As potências coloniais dividiram África a régua e compasso sob a batuta do alemão Bismark (1984-1985). Lembro que ainda no tempo em que se pensava que a terra era plana, Espanha e Portugal, por uma vertical no mapa que servia as navegações a que chamaram “descobrimentos”, dizia, dividiram o mundo metade para cada um.
Passado o tráfico esclavagista que eu desenho no meu romance “Kalunga”, veio o colonialismo, a resistência popular “sem pólvora”, míticas catanas e, já com armas de fogo, as lutas de libertação. O nosso país é depositário de um exemplo de ter congregado todos para uma pátria e uma só nação, rica pelas diferenças que enriquecem a unidade.
Quando grupos de cidadãos têm determinadas ideias políticas comuns, querem eleger e ser eleitos, surgem os partidos. Por razões históricas que incluem a própria forma emergente como a independência foi proclamada, foi apenas por um dos movimentos de libertação, embriões dos futuros partidos. Passámos por um partido único, contradição nos próprios termos porque uma parte não pode ser um todo com uma só ideologia. Só após vários traumas da guerra fria transposta para a nossa inocência de nos andarmos a matar em vez de conversarmos, conseguiu-se finalmente a paz, o pluripartidarismo e eleições.
No entanto, transferiram-se feridas da guerra para a luta política até se conseguir um novo clima com as últimas eleições.
É neste contexto que a UNITA, partido marcado pela herança do totalitarismo do seu guia falecido em combate, veio surpreender com um exercício democrático fazendo eleições limpas e transparentes para eleger o seu novo líder, ao que parece sem qualquer pressuposto racial ou regional. Parece que conseguiram eleger o melhor e não houve conflitos e reforçaram a unidade.
Adalberto da Costa Júnior, que venceu com 53,4%, assumiu imprimir uma nova dinâmica com o propósito de manter a coesão, fomentar o patriotismo e servir a cidadania. Os tempos que vivemos em que ser de um partido é ser inimigo do outro parece que acabou e o Presidente da República saudou o novo líder da UNITA.
Pela importância que Adalberto dá à cidadania e ao país, parece significar não ser adepto da política do “bota abaixo” ou ser obsessivamente do contra. Antes pelo contrário prioriza os interesses do país não esquecendo assim que uma das maiores heranças da nossa ancestralidade é reunir no jango e obter consensos.
A UNITA deu um passo de gigante e seria maior se tivesse manifestado a renúncia aos princípios do falecido “muata” como a Alemanha fez com Hitler muito mais agora que vozes se abrem como a do livro “AS MULHERES DO 5º ANO” de autoria de Florbela Malaquias.
Pelas suas intervenções parlamentares e públicas, o país não pode perder o pensamento de Adalberto, que poderá protagonizar uma relevante participação nas próximas eleições. Lembro-me que quando Dos Santos me convidou por escrito para membro do Conselho de Estado, não aceitei também por escrito. Afinal não queria mordomias para bater palmas e escrever moções de apoio. Por isso, hoje sinto um especial orgulho de cidadania pelo facto do Presidente João Lourenço ter convidado Adalberto da Costa para membro do Conselho de Estado, onde devem estar os homens e as mulheres de superior competência do país e não os reumáticos mentais ou os que caíram para cima.
O poder político deve manter cada vez mais elos de ligação e comunicação com o povo. Banalizado que foi o poder tradicional até com sobas nomeados e com a farda dos antigos sipaios, deveria haver em cada província um conselho de anciãos, sobas mais velhos que elegeriam um representante para o conselho nacional de anciãos. Os nossos mais velhos do povo deveriam dar parecer, embora não vinculativo, sobre a governação, reforçando também a transparência do poder autárquico.
Esperemos pelo próximo futuro em que os partidos sejam as fontes de onde possa jorrar pensamento político límpido como a água da chuva e promissor para as melhores colheitas. Só assim os partidos corresponderão àquilo que mais nos importa: a nação.

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