Opinião

Nada está perdido

Juliana Evangelista Ferraz |*

O impacto do choque externo causado pela pandemia da Covid-19 prevalece e teima em alastrar-se nos diversos sectores socio-económicos. Porém, esta constatação não nos deverá deixar de braços cruzados; devemos, antes, lutar nas mais diversas esferas para erradicar os efeitos perniciosos que derivam deste mal.

Nesta perspectiva, um pouco por todo mundo, os estados optaram pela implementação de políticas expansionistas, com o objectivo de salvaguardar essencialmente duas áreas fundamentais - a saúde e a preservação do emprego. Tal como na Biologia, a Economia deve ser encarada como um organismo vivo, composto de partes diferentes e interdependentes, que devem ser estimuladas individualmente, para que haja um melhor desempenho do todo.
Assim, nada está perdido. Apesar de atravessarmos um período de crise e de recessão, devemos ter em mente que o sistema não irá soçobrar e que, depois da crise, antevemos um período de retoma em V. Como recentemente o FMI referiu, a economia internacional irá retrair-se, este ano, em 3%. Para o ano de 2021, o PIB mundial deverá crescer 5,8%.
Recentemente, a agência de rating Moodys reviu em baixa o rating de Angola, de B3 para Caa1.Foram apresentados alguns pressupostos que ditaram a nova classificação, nomeadamente, a queda do preço do petróleo no mercado internacional, a pandemia mundial da Covid-19, incluindo o aumento da desvalorização da moeda.
No nosso caso em concreto, dois dos pressupostos que contribuíram para a baixa do rating (queda do preço do petróleo e Covid-19) não dependem exclusivamente do desempenho da economia nacional; são problemas conjunturais dos quais o país não está isento e deve esperar pela melhoria das condições da economia mundial, sendo certo que, se a economia angolana tivesse um cunho mais diversificado, o impacto dessas variações seria evidentemente menos acentuado.
Um Estado, ao deter uma nota negativa, tem imediatamente dificuldades de financiamento nos mercados, uma vez que as condições para este apoio são severamente degradadas e feitos a custos mais elevados, resultando na contracção do mercado de crédito e, consequentemente, na dificuldade de criação de riqueza.
Um pouco por todo mundo, e devido a um conjunto de factores, os países têm vivido este tipo de constrangimentos cíclicos. Mesmo as economias mais desenvolvidas não estão imunes a esta crise do capitalismo moderno. É preciso traçar um novo rumo; precisamos de transferir activos para a iniciativa privada, porque, se não o fizermos, não haverá capacidade para gerir e planear novas infra-estruturas. É preciso optimizar os recursos e alocá-los aos projectos prioritários.
Mais do que privatizar, é importante que haja boas políticas de regulação e concorrência e que os processos de privatização ocorram de forma transparente, criem valor e garantam o interesse das partes envolvidas, numa economia que se quer aberta e concorrencial.
As privatizações devem ser vistas caso a caso. O facto de ser uma entidade estatal não significa, a priori, que seja uma empresa ineficiente. Ou seja, há empresas públicas que não devem ser privatizadas, principalmente as que estão em sectores estratégicos, por funcionarem como mecanismos de promoção de desenvolvimento ou garantirem, sob controlo do Estado, um serviço público essencial. É verdade que, em alguns casos, requerem investimentos muito elevados e apresentam retorno lento, sendo por isso pouco atractivas à iniciativa privada. Por via da privatização e concessão de infra-estruturas, é possível gerar oportunidades e investimentos para dinamizar-lhes a gestão.
Portanto, os desafios estão em todo lado e é importante injectar recursos para investir em saúde e em outros sectores, com medidas de apoio emergenciais que visam conter o impacto negativo do coronavírus e atenuar também os impactos económicos da pandemia.
A economia precisa de liquidez, as famílias e as empresas estão sufocadas, por falta de capital circulante, facto que justifica as medidas assistencialistas por via de reforço dos programas de apoio a famílias vulneráveis, à manutenção de empregos e ao combate à pandemia. É preciso pensar na saúde e no emprego e proteger a população angolana desse choque externo.

*Economista

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