Opinião

Nada é eterno

Luísa Rogério

Não me lembro de muitos casos de pedidos de desculpas apresentados por pessoas investidas de cargos públicos depois de terem sido exoneradas.

Na verdade, assim de repente, não me vem à memória qualquer “ocorrência” do género. As aspas são propositadas. Não vemos com frequência alguém desculpar-se publicamente por eventuais erros cometidos fora ou no exercício das suas funções. O inédito para a nossa realidade registou-se no dia 2 do corrente mês aquando da cerimónia de passagem de pastas do antigo para o novo Comandante Geral da Polícia Nacional de Angola. Alfredo Eduardo Mingas, também conhecido por “Panda”, chamou a atenção da opinião pública ao discursar no acto de posse do seu substituto, o Comissário Chefe Paulo de Almeida. Envolvido num acidente de viação do qual resultou a morte de dois cidadãos, o ex-comandante solicitou o afastamento do cargo público, segundo a nota que divulgou a exoneração. As reacções não se fizeram esperar.
As circunstâncias do acidente motivaram a intervenção da Procuradoria Geral da República. Dentre as mil e uma linhas de investigação paralelas conduzidas pelo “povo em geral”, questiona-se o facto de ter sido o próprio ex-Coman-
dante a conduzir a viatura que embateu no carro que transportava as vítimas. Cruzam-se argumentos favoráveis e contrários, mas as conclusões vinculativas serão as ditadas pelas investigações oficiais. De qualquer modo, não havendo presunção de culpa no nosso ordenamento jurídico, apesar das mortes lamentáveis, o antigo homem forte da Polícia Nacional fica protegido pelo benefício da dúvida até a conclusão do inquérito. Vamos aguardar.
Mas não precisamos de esperar para abordar algumas ilações do infeliz episódio de que resultou o mais sonoro pedido de desculpas dos últimos tempos. Tão admirável quanto o gesto é a admiração colectiva. Porque nos espantamos? Desculpa é uma das chamadas palavras mágicas, conforme transmitimos às crianças desde tenra idade. Pedimos desculpa quando erramos. Mesmo que a falha tenha sido involuntária ou não conformada, basta ao ser humano comum notar reacções negativas provocadas por gestos seus para se desculpar. É um elementar acto inserido entre as regras básicas de educação. Ainda assim, admiramo-nos. Olhamos uns para os outros com a expressão típica de espanta diante de situações incomuns. Um gesto simples, inerente à natureza humana ganhou repercussão incomum. Porquê? Simplesmente porque estamos em Angola. Não é habitual entre nós. Aqui é normal as pessoas agigantarem-se depois de nomeadas para funções de alto gabarito. Do dia para a noite pessoas que sempre foram cordatas transforma-se. Passam a dirigir-se aos berros ao falaram com colegas e amigos a quem tratavam por “manos”. Ninguém se admira quando se confunde autoridade com autoritarismo que beira o boçalismo. Alguns servidores públicos  tornam-se assustadoramente arrogantes, insensíveis e irreconhecíveis.
A cultura do “eu posso, eu mando, eu é que sei porque sou o chefe” dita regras. Funciona como regulamento para a conexão entre chefes e subordinados. Relações institucionais mantidas pessoas não deixam de ser humanas. Os chefes da prepotência esquecem-se que nada é eterno. Um dia tudo acaba e voltam para o lugar de onde partiram. Onde se confrontam com desafectos criados enquanto utentes de cargos que os catapultaram para o escalão superior em termos de hierarquias.
Os complexos meandros da síndrome de chefia concorrem para engrandecer um comum pedido de desculpas. Independentemente do resultado do inquérito o ex-Comandante Panda evidenciou o carácter realçado pela conduta militar. Demonstra coragem ao colocar o lugar à disposição, reconhecer eventuais erros e pedir desculpas ao país. Uma palavra define essa postura: dignidade! Valor que não podemos pedir a quem não tem, muitas vezes por desconhecer o significado do termo. De certa maneira terá impulsionado a era do fim da falta de noção que motiva servidores públicos a declararem missão cumprida apesar de a realidade exibir exactamente o contrário. Do mesmo modo que tremo de indignação diante de injustiças, não posso deixar de assinalar gestos que fazem a diferença neste país de raridades com pendor negativo. Bato pala!

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia