Opinião

Nada será como antes

Adebayo Vunge

O compromisso de alimentar uma coluna semanal nem sempre é tão fácil quanto parece. Há vezes em que as ideias nos fluem, mas existem dias em que nos encontramos na condição de um absoluto apagão e inexplicável vazio. Absoluto porque nem mesmo a multiplicidade de factos, temas e debates nos dão o alento para escrever. E esta talvez seja, para mim uma daquelas semanas assim, não obstante o compromisso que assumi com a publicação, mais do que isso, com os seus leitores, para alimentar semanalmente uma coluna com tema de escolha livre. Nem isso levou-me a abrir a imaginação. Pensei em vários temas, rebusquei outros, mas esta foi a semana mais chata e difícil. 

A preguiça tomou conta. Outras responsabilidades absorveram a minha energia e disponibilidade, porém, quando tentei sentar-me diante do computador perdi-me na internet sem escrever uma linha que fosse. Por isso, quando olho para mim mesmo, dou-me conta que há alguns dias é assim… e no final então concluo: não é angústia, nem solidão. Crise existencial? Será algo inexplicável, talvez seja apenas o indício da necessidade de umas férias... 
Enquanto isso não acontece, mas já em pleno Cacimbo, é oportuno ressaltar a realização, no quadro do Encontro Nacional da Educação, do autodiagnóstico feito pelo Ministério da Educação ao nosso sistema de ensino, à reforma educativa e à enfase que foi colocada no papel do professor no processo de aprendizagem, do professor na escola em particular e na sociedade de uma maneira geral. 
Não obstante o investimento que o Estado venha a fazer em toda a cadeia, e há promessas de dobrarmos a fatia que é despendida a este sector, nos termos do compromisso de Dakar e das metas do Plano de Desenvolvimento Nacional, o mais relevante é o factor homem na era actual. Percebermos todos o quanto precisamos de ter professores competentes, responsáveis, comprometidos e motivados. 
Aceitarmos a meta de combate ao analfabetismo, de combate imediato a situação humilhante de ainda termos crianças sem acesso à escola, seja quais forem as razões que explicam e de elevarmos a qualidade do ensino para também elevarmos o nosso desenvolvimento social, cultural, tecnológico e económico. 
Foi, nesta matéria, lapidar a comparação feita pelo Vice-Presidente da República, e também ele Professor, Bornito de Sousa. Estamos num momento decisivo. Ou acertamos e mudamos a nossa trajectória fazendo aqui uma opção clara e inequívoca para o desenvolvimento, com um sistema de ensino que nos leve a atingir essa meta ou poderemos colapsar. É importante estabelecermos um paradigma para o que queremos no nosso sistema de ensino. E esta meta só poderá ser atingida olhando-se para os melhores, as boas referências internacionais. Olhando e fazendo por isso.
Colocar o homem no centro da governação é estar próximo da realidade, das suas forças e das suas fraquezas. O homem no centro da governação é olhar para o seu bem-estar, o seu estado de saúde, olhar para a assistência médica que é prestada aos cidadãos como o fez no passado sábado o Presidente da República. João Lourenço visitou algumas unidades hospitalares em Luanda para in loco perceber a realidade nua e crua do que se passa, do que se ouve e do quanto temos de melhorar. Estar próximo dos problemas e das pessoas confirma um compromisso,  responsabiliza os gestores e devolve alguma esperança aos cidadãos. É como a história do paciente que se sente melhor apenas pela presença de um médico. Do cidadão que sente maior segurança e tranquilidade com a presença de um agente da polícia. É óbvio que a presença de João Lourenço é um sinal claro do seu comprometimento com a adopção de políticas públicas sustentáveis e mais rigorosas para criarmos um sistema de saúde que actue na prevenção e cura, visando uma população saudável. Com isso, voltamos ao tema da educação. Um bom sistema de ensino tem uma influência decisiva no sistema nacional de saúde pública no sentido em que as pessoas tenham noção de que devem, por exemplo, diante de uma febre, procurar soluções medicinais e não mitológicas.
Finalmente, um breve olhar, no vazio em que me encontro não seria diferente, verdadeiramente breve à decisão das instâncias judiciais portuguesas em transferir o “caso Manuel Vicente” para a esfera das entidades judiciais de Angola. Prevaleceu uma opção mais consensual e a contento das partes, terminando assim um caso que implicava as relações entre Angola e Portugal. Seja qual for o desfecho que venha a ser dado intramuros, a verdade é que este “irritante” abriu uma “ravina” nas relações oficiais entre os dois Estados. As coisas não serão como antes. Passarão a existir reservas. Vazio não é. Solidão também não. As relações vão continuar, mas repito, nada será como antes.

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