Opinião

Não haveria dinheiro que chegasse

Carlos Gomes |*

Por definição, dinheiro é um instrumento de pagamento usado nas trocas, geralmente materializado sob a forma de notas e moedas, que é aceite por uma sociedade para pagar bens, serviços e todo o tipo de obrigações.

 A sua origem etimológica remete-nos para o vocabulário latim “denarius”, que era o nome da moeda que utilizavam os romanos. O dinheiro reúne três características básicas: i) meio de intercâmbio/troca, que se armazena e transporta facilmente; ii) unidade de contabilidade que permite medir e comprar o valor de produtos e serviços no caso de estes serem bastante diferentes uns dos outros; iii) reserva de valor que permite fazer poupanças.
Nos dias que hoje correm,  o dinheiro pode criar-se de acordo com dois procedimentos: o dinheiro legal, aquele que o Banco Central produz através da impressão de notas e cunhagem de moedas, e o dinheiro bancário, desenvolvido pelos bancos privados através da anotação nas contas dos respectivos clientes.
A propósito da anotação nas contas de clientes, evidentemente suspeitava-se que nem tudo corria de feição no nosso sistema financeiro, mas nunca com a dimensão astronómica  dos números que hoje invadem as nossas cabeças, em resultado de desvios/surripio do Banco Central, ou de Instituições e empresas públicas, de centenas de milhares de milhões (bilhões) de dólares, transferidos para contas pessoais.
Essa nova realidade difícil de digerir, cria no âmago de qualquer cidadão comum, provido de carácter, a nostalgia de regresso ao tempo do início da civilização em que se trocava gado por sal, para quem tivesse excedente, ou seja, teria sido muito difícil transportar para Londres “onde existe melhor pasto de engorda” gado no valor de 500 milhões de euros e milho para as Ilhas Maurícias no valor de 1.5 mil milhões de dólares, “prevenindo-o de pragas que assolam sazonalmente o nosso país”, dinheiro antes pertencente ao Fundo Soberano de Angola, hoje depositado (inexplicavelmente) em contas da Quantum Global...!!!
O anterior sistema financeiro para se prevenir dos “gatunos”, trancava as janelas das casas fortes, mas deixava as portas abertas. Ficou provado que gatunos não são as centenas de estrangeiros que, com a facilitação ou isenção de vistos, desembarcaram do navio cruzeiro que recentemente atracou na Baía de Luanda e visitaram os nossos (poucos) pontos turísticos, deixando, num só dia, algumas dezenas de milhares de dólares. Gatunos foram todos aqueles que a coberto de imunidades, protegidos por passaportes de “capa vermelha”, utilizando corredores protocolares passaram, fizeram passar ou transferiram para paraísos fiscais bilhões de dólares, cujo retorno ao país se apresenta agora como um verdadeiro desafio para o novo Executivo do Presidente João Lourenço. Gatunos foram aqueles que, sob pretextos diversos, “desventraram” fundos públicos, avocando competências de sectores criados para a realização de projectos estruturantes, desbarataram mais de um terço (20 bilhões de dólares) do financiamento chinês (60 bilhões de dólares), que seria fundamentalmente para a construção de uma moderna malha rodoviária que permitiria a conexão em toda a extensão do território nacional, condição sine qua non para a atracção de investimento, prevenção do êxodo rural, promoção do turismo e esbatimento das assimetrias/desigualdades regionais na caminhada para uma nova realidade - as autarquias locais.
Porém, o despudor voraz, se não mesmo apátrida, que caracterizou a actuação de alguns servidores do anterior sistema de gestão financeira, ao deixar milhões de almas angolanas na indigência e o país à beira da “banca rota”, ainda que o preço do barril do petróleo  atingisse os 500 dólares,  não haveria dinheiro que chegasse, se se mantivesse o “status quo”...!!!
  * Economista

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