Opinião

Naturalização relâmpago pela presença no Africano

Honorato Silva

Ao insistir na naturalização do brasileiro Tiago Azulão, como a solução para o alegado défice ofensivo dos Palancas Negras, a razão da ausência de Angola da grande “montra” do futebol africano de selecções, Artur Almeida e Silva deixou claro que fez uma aposta alicerçada em pretensões pessoais à frente dos destinos da Federação, com o propósito de ser reeleito a um segundo mandato.

A certeza de que a entrada do avançado do Petro de Luanda, melhor marcador das duas últimas edições do Girabola, vai adicionar nervo competitivo à equipa nacional, nomeadamente capacidade e qualidade de finalização, levou na segunda-feira o ainda máximo dirigente do organismo reitor da modalidade em Angola a desvalorizar, em horário nobre, os jogadores que na véspera orgulharam o país, com a vitória frente ao Botswana, na corrida ao CAN do próximo ano nos Camarões.
Convicto de que o golo no futebol resulta de um acto e não de uma sequência de processos, Artur Almeida reassumiu, no programa Desporto Total da TPA, que teremos uma Selecção “imbatível”após a naturalização do jogador, porque o futebol angolano não tem finalizadores à altura. O que terá dito Gelson Dala, goleador forjado nas ruas de Luanda, hoje “abono de família” dos Palancas Negras, depois de ouvir a avaliação feita pelo dirigente desportivo num discurso depreciativo?
Na lógica do presidente da FAF, o autor do golo solitário que deu os primeiros três pontos ao país, na campanha de apuramento, é inferior a um avançado a quem superou na disputa da distinção de melhor marcador do Girabola, feito que ditou a transferência para o Sporting de Portugal, enquanto o concorrente, talvez pelo peso da idade, parece ter os horizontes limitados ao futebol angolano, dada a falta de interesse do estrangeiro nos golos que marca por atacado.
Os seus 30 anos tornam Tiago Azulão uma aposta de curto prazo, de altíssimo risco e sem o mínimo de segurança, apesar de os defensores do recurso a activos oriundos de outras paragens citarem, de forma recorrente, a Espanha e Portugal como exemplos de competidores fortes que abraçaram a naturalização.
Um argumento sustentado pela lógica do petróleo, o pai de muitos dos nossos males, com destaque para a soberba que ludicamente colocou o angolano acima dos outros povos africanos, daí a bitola de comparação ser a europeia, quando faz todo o sentido nos questionarmos se nações fortes em África, como o Gana, Senegal, Mali, Camarões, África do Sul ou Zâmbia foram ao mercado “comprar” atletas para chegar aos CAN e mundiais.
Diante do silêncio dos VHF (Verdadeiros Homens do Futebol), tem válido a ponderação do titular do poder executivo, que apostado no crescimento sustentado do país em todos os sectores, na busca do desenvolvimento, dispensa a aposta em soluções fáceis e instantâneas, convicto de que apenas o trabalho nos levará de volta às veredas. Por isso, o processo de naturalização segue em “banho-maria”, sem certeza de que vai cozer, porque nenhuma das sete presenças no CAN, cinco consecutivas, foi conquistada sem suor. 

 

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