Opinião

Nelson Mandela

Sebastião Vinte e Cinco

Pode a história da África Moderna e da humanidade contornar uma figura icónica como Nelson Mandela, um homem que, mais do que ex-presidente da África do Sul, foi um verdadeiro combatente da liberdade?

A centralidade da figura de Mandela para a história moderna de África resulta do seu profundo envolvimento e liderança na luta contra um dos regimes mais assombrosos do mundo que durante 46 anos governou a maior potência económica africana, a África do Sul, sob a filosofia ultra aviltante do Apartheid.
A forma como aquele Grande Filho de África abordou o regime racista do Apartheid ao longo de toda uma vida fora e dentro das grades,  a maturidade adquirida ao longo de todo aquele tempo e a inteligência demonstrada durante as negociações com o próprio regime que culminaram com o  fim do seu cárcere, para não falar da  maneira como se comportou no day after a este mesmo regime fizeram inquestionavelmente de Mandela um símbolo  de resistência, de perdão e de moralidade na política à escala mundial.
Somente a sua condição humana, incontornavelmente falível por natureza, impede a atribuição ao mesmo do estatuto de imaculado ou de santo, como aliás o próprio terá admitido. Não obstante, tentativas de desacreditação e de poluição da sua figura e do seu legado têm se multiplicado quer na própria África, que o viu nascer, quer no resto do mundo. Os detractores de Mandela apresentam argumentos no mínimo arrogantes para empestar a imagem deste ícone sem paralelo. Exemplo disso são alguns críticos que sustentam as suas repulsas pela natureza heróica de Mandela com o facto de este, a dada altura da sua luta contra o Apartheid, alegadamente ter assumido que indivíduos de cor branca deveriam ser mortos em retaliação aos assassinatos de negros pela polícia racista com o beneplácito do regime que então governava a África do Sul. Por outro lado alegam, por exemplo, que Mandela ter-se-á comprometido a “entregar” minas de diamantes a determinados grupos empresariais estrangeiros tão logo chegasse ao poder como forma de retribuição pelo apoio destes para que a sua libertação a 11 de Fevereiro de 1990 se tornasse um facto.
Ainda que provada, a alegação de que Mandela terá caucionado o assassinato de brancos na África do Sul racista  jamais mereceria  censura na medida em que se trataria  de uma posição a  ser entendida no contexto da luta dos povos negros e africanos em geral pelo fim de um regime anacrónico que subjugava, humilhava e eliminava fisicamente  um povo que tinha todo o direito natural e positivado de se defender com todas as armas ao seu alcance contra os seus  algozes. De resto, as independências de países como o Brasil, para citar só um exemplo, não se conseguiram combatendo-se os respectivos colonos empunhando rosas de porcelana!
Relativamente à alegação de acordos secretos com determinados grupos empresariais estrangeiros para a concessão de valiosas minas de ouro na África do Sul, não se percebe que mal pode ter um político arregimentar apoios para uma causa e no final compensar, em nome de um povo, um parceiro de luta que a despeito de não ter empunhado armas, contribuiu para a obtenção de um resultado de valor incalculável como é o fim do Apartheid. Dito de outro modo, sendo Mandela um político, não é razoável denegrir-se a sua imagem com base em argumento tão abalável.  Outra crítica que tem sido apontada a Mandela se traduz na sua alegada ingratidão relativamente aos países africanos que se envolveram igualmente na luta que culminou com a queda do regime racista que governou o seu país. Ora, quando Neto, Fundador da Nação Angolana, proclamou perante a África e o mundo que “na Namíbia e na África do Sul estava a continuação da Nossa Luta” seguramente que não o fez a pensar em recompensas! 
Enfim, alegações visando denegrir Madiba e o seu legado seguramente que continuarão a surgir, quer vindas da própria África do Sul, quer de outros países africanos e dos diversos pontos do mundo.
De todo o modo, três factos serão suficientes para deitar por terra as teorias poluidoras da figura e do legado de Mandela já tornadas públicas ou a serem publicadas, nomeadamente:
1.º Mandela, eleito em 1994 para as funções de Presidente da República da África do Sul, podendo encetar uma perseguição aos seus adversários políticos como, por exemplo, Pieter Botha ou mesmo Frederik Willem De Klerk, a quem sucedeu naquelas funções,  Mangoshutu Buthelezi, líder do Inkatha Freedom Party, que se assumiu como opositor do ANC, ou Eugène Terre’Blanche, líder do partido extremista Africâner e racista convicto da supremacia branca, optou em vez disso por dar uma verdadeira e grandiosa Lição de Perdão ao mundo, tendo mesmo ido mais longe ao pugnar pela configuração de uma Lei-Mãe que acomodasse, como efectivamente acomodou, na qualidade de segundo vice-presidente do país, o principal líder da oposição, na ocorrência Frederik de Klerk, e ao convidar Buthelezi para seu ministro dos Assuntos Internos;
2.º Nas funções de chefe de Estado Mandela, contrariamente a muitos governantes africanos que no exercício de cargos públicos tendem a se apropriar  indevida e imoralmente de património do Estado ou a usar de influência do cargo para acederem a (pseudo)negócios que os tornam absurdamente endinheirados, não se conhecem, pelo menos até ao momento, quaisquer acusações de que este se tivesse enriquecido à custa do erário ou do cargo. Mandela terá sido, aliás, dos escassos líderes políticos e governantes africanos de que se conhece o respectivo património hereditário revelado que foi aquando da abertura da sua sucessão e da leitura do testamento;
3.º Podendo se manter no poder por via de reeleições a mais mandatos, ainda que tal implicasse alterações à Constituição como parece ter virado moda no continente-berço, o que muito provavelmente conseguiria tendo em conta a enormíssima admiração de que gozava  do seu povo em geral, abriu mão de tamanho poder, seguramente  por acreditar  que a sua nobilíssima missão estava cumprida e que o desafio da gestão macro-económica do país poderia  ser assumida pela geração de quadros de que o seu sucessor, Thabo Mbeki, fazia parte.
Os três feitos ora elencados fazem indubitavelmente de Mandela um líder africano sem par e por conta disso é mais do que devida a veneração que lhe é rendida por homens e mulheres de todos os continentes, deitando por terra as tentativas, mal-intencionadas obviamente, de denegrir a sua imagem e o seu legado.
Estranhamente as honras dadas a Mandela pelo mundo ocidental têm vindo a “constranger” alguns africanos, incluindo até mesmo (pseudo)intelectuais, que, quiçá levados pelas insustentáveis teorias acima mencionadas e outras, preferem insinuar que o reconhecimento do primeiro mundo pela obra deste ícone africano visaria alimentar teorias da conspiração contra um modelo axiológico adoptado pelas elites políticas africanas. É assim que, infelizmente,  para minimizarem o seu contributo para a história da humanidade e por via disso desvalorizarem o legado de Mandela, muitos insistem em desvalorizar a figura e o legado deste, eventualmente para não se verem obrigados a se vincularem aos seus bons exemplos de transparência, de perdão e de respeito pela coisa pública evidenciados no período de 1994 a 1999 em que  dirigiu, como Presidente da República, os destinos da África do Sul.
Se para o mundo ocidental Mandela se distinguiu antes mesmo de assumir o poder com a atribuição ao mesmo do Prémio Nóbel da Paz em 1993 pela sua luta contra o regime segregacionista que vigorou de 1948 a 1994 naquele país irmão, facto de que os africanos muito se orgulham ou se deveriam orgulhar, nunca será demais sublinhar que nem por isso  nas funções de Chefe de Estado deixou de se notabilizar e de se distinguir ainda mais ao agir de forma diametralmente oposta comparativamente a outros guias libertadores africanos pelos feitos acima resumidos.
Os dectractores de Mandela parecem não se  aperceber, ou talvez prefiram simplesmente  fazer tábua rasa, do facto de que este viveu e foi líder político e governante num período particularmente degradante para os africanos na medida em que se sucederam e se sucedem no continente lideranças de estadistas cleptocratas que se agarram ao poder de forma bizarra e vergonhosa, pilhando os seus próprios países e pisoteando humilhantemente os seus compatriotas negando-lhes inclusive o mínimo para a satisfação de necessidades básicas. Os feitos acima resumidos fazem de Nelson Mandela, que diferentemente de outros grandes actores da história da humanidade como Martin Luther King e Mahatma Gandhi, experimentou o poder político ao seu mais alto nível, um herói à escala planetária, pelo que os africanos se devem orgulhar e procurar seguir os seus singulares exemplos.

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