Opinião

Nelson Mandela e as novas gerações

Adebayo Vunge

Se estivesse vivo, Nelson Mandela completaria cem anos. Mesmo não estando mais fisicamente entre nós, os vivos, a humanidade, no verdadeiro sentido da palavra tem vivos motivos para celebrar o centenário de Madiba.

Nascidos no pós-independência, mas ainda em tempos de perceber a real dimensão, no tempo de vida, as novas gerações, a minha geração encontra em Mandela um verdadeiro ícone. Da paz e da liberdade. Ou por ordem inversa, da liberdade e da paz. Em 2002, uma sondagem internacional colocou-lhe como o segundo nome mais conhecido do mundo, perdendo apenas para a Coca-Cola que, como sabemos, investe centenas de milhões de dólares em Marketing. Mandela é uma referência pela sua história, pelo seu exemplo e pelos valores que nos deixou – longe dos ismos do novo tempo: racismo, sectarismo, terrorismo, individualismo, etc.
Nascidos no pós-independência, as novas gerações habituaram-se a crescer ouvindo falar do que representava e o papel histórico de Mandela quando os sul-africanos, em especial alinhados no ANC, combatiam radicalmente o apartheid muitas vezes a partir de Angola, Moçambique e Zimbabwe. Não apenas pelos ventos da nossa história, uma vez que crescemos com a linguagem do carnaval da vitória a 27 de Março, representando a vitória das nossas forças aos “hostis invasores e carcamanos sul-africanos”. Era essa a linguagem da época. Uma linguagem carregada de ideologia e convicção. Crescemos habituados a ouvir essa linguagem dos nossos mais-velhos, com a convicção do valor da solidariedade. Era um tempo em que todos tínhamos acesso ao mínimo e básico para uma qualidade de vida social e democraticamente aceitável. Os professores eram cubanos, os médicos coreanos do norte, na administração pública havia solidariedade dos irmãos do pacto de Varsóvia para ajudar a planificar e centralizar a economia. Enfim, eram outros tempos.
Nascidos no pós-Independência, ainda tivemos a felicidade de acorrer em massa ao Largo 1º de Maio, para assistir ao vivo e a cores ao comício com a presença de Nelson Mandela, o carcereiro de Roben Island que se tornou o primeiro Presidente negro da História da África do Sul, não obstante todas as histórias que se colocaram a volta da sua relação com Luanda na definição de uma estratégia para o fim do nosso conflito armado.
Nascidos no pós-independência, muitos nascidos mesmo no nosso pós-guerra, sabemos bem o sabor da liberdade, mesmo que a “longa marcha” tenha sido marcada por fortes agruras e humilhações. Com a sua liberdade, e ao contrário do que menos esperávamos, Mandela ganhou a dimensão dos ícones da humanidade, tal como Ghandi ou Martin Luther King, dizendo não à subjugação de uns pelos outros e recusando qualquer inferiorização do homem. Com a sua liberdade, tornou-se um ícone político e um símbolo de liderança e boa gestão.
Nascidos no pós-independência, ainda tivemos a sorte de viver os respícios da História, alimentar sonhos e ler as ilusões e paixões de um homem que marca de forma indelével o século XX. Há, assim, três livros que traçam um retrato genial do nosso ícone, homenageado a semana passada durante a reunião do BRICS que ocorreu na própria África do Sul: “Mandela - meu prisioneiro meu amigo”, de James Gregory, “O legado de Mandela”, de Richard Stengel, e “Liderar como Mandela”, de Kalungo Banda. Deste último livro polarizou-se a seguinte estória:
“A pedido de Mandela, a BP iniciou a construção de uma escola primária. Quando o projecto começou, o encarregado Peter, foi convidado para um pequeno almoço com o Presidente Mandela. Nesse dia, Peter escolheu o seu melhor fato para vestir e pediu a um dos motoristas que o levasse até ao encontro. Primeiro, surpreendeu-se ao verificar que o anfitrião o esperava no parque de estacionamento de sua casa. Depois, e já na mesa mas ainda antes do pequeno-almoço, o Presidente perguntou-lhe pela pessoa que o acompanhava. Quando Peter informou que a outra pessoa era o motorista e esperaria no carro, Mandela levantou-se, dirigiu-se ao motorista e convidou-o para se juntar aos dois, para o pequeno-almoço”. Essa é uma entre centenas de estórias e discursos de Mandela que são verdadeiras lições de vida, com profundo sentido de humanidade e solidariedade.
O homem que soube liderar com o exemplo, a sensibilidade humana profunda (talvez) própria de quem viveu no cárcere  a dor da humilhação e privação de liberdade, vendo ao mesmo tempo o seu povo sofrer em sua própria terra. Mas essa dor em Mandela é infinitamente inferior ao seu sentido de perdão. Muitos esperavam vê-lo a escorraçar os supremacistas brancos. Sua elevação foi maior. Perdoou e pediu-lhes que participassem na construção de uma nova República da África do Sul. Ele tinha perfeita noção da grandeza do problema social gerado pelo apartheid. De resto, o desemprego e a criminalidade são o traço principal, sem prejuízo de toda a pujança e vitalidade da economia sul-africana que lhe permitiu integrar a própria organização do BRICS.
Um traço de afirmação da nossa africanidade, ainda mais neste tempo novo em que se pretende fortalecer os laços de amizade entre os nossos povos, a cooperação económica e a concertação política seria a inauguração de uma estátua, o nome de uma avenida ou largo em Luanda e outras cidades com o tributo a Mandela. Cresci, conhecendo de perto o Largo do Soweto e porque não a transformação em Largo Nelson Mandela. Para que não percamos nas novas gerações a noção clara e inequívoca que animou a nossa história de amizade e solidariedade entre os povos.

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