Opinião

Nem sempre quem chora precisa de mamar

Osvaldo Gonçalves

A última semana foi tão farta em acontecimentos que resolvemos recorrer ao estilo da velha rubrica “2&2=4” para deixar que o leitor tire as suas próprias conclusões após ler esta crónica. O primeiro assunto é referente à detenção no Reino Unido de Julian Assange. Na passada quinta-feira (11-04), o australiano de 47 anos, para muitos um whistleblower (“tocador de apito” em tradução literal), para alguns um “pirata informático”, foi arrastado para fora da Embaixada do Equador em Londres, onde se refugiara em 2012.

Assange é uma espécie de jindungo kahombo: é amá-lo ou odiá-o. Em 2010, a organização Wikileaks, por ele fundada, divulgou mais de 90 mil documentos confidenciais relacionados com acções militares dos Estados Unidos da América no Afeganistão e cerca de 400 mil documentos secretos sobre a guerra no Iraque.
No mesmo ano, foram tornados públicos cerca de 250 mil telegramas diplomáticos do Departamento de Estado dos Estados Unidos, num grande embaraço diplomático para o país. O exemplo foi seguido por muitos informadores e delatores. A maka é que o conceito de whistleblower confunde-se entre o denunciante e o informador.
O segundo é a divulgação um dia antes da primeira imagem de um buraco negro, corolário do trabalho de vários anos de uma equipa de 200 cientistas liderada por Katherine Bouman, doutora em engenharia eléctrica e ciência da computação pelo MIT (Massachusetts Institute of Technology), e professora visitante no Caltech (Instituto de Tecnologia da Califórnia).
Em Abril de 2017, a rede Event Horizon Telescope (Telescópio Horizonte de Eventos ou EHT) composta por oito grandes aparelhos, apontou para a galáxia M87, situada a 500 quinquilhões de quilómetros da Terra, e, por um período de dez dias, examinou o seu coração. O resultado foi a observação directa do buraco negro, maior do que o nosso sistema solar.
O terceiro tem a ver com as sucessivas denúncias de tentativas de estelionato no Brasil, na sequência da tragédia de Brumadinho, Minas Gerais. Segundo a imprensa daquele país, nomes de falsos desaparecidos foram retirados da lista. Dados oficiais apontam para 224 mortos identificados e 69 pessoas desaparecidas.
O caso mais grave foi o de Ana Maria Vieira Santiago, de Goiânia, que em 2014 se candidatou a deputada distrital pelo MDB, mas não foi eleita por falta de votos suficientes. Ela já havia recebido 65 mil reais da mineradora Vale, supostamente destinados a pagar a cirurgia do filho que sofrera grave lesão ao fugir da lama. Agora, queria mais, pois, havia declarado que a actividade agropecuária desenvolvida na propriedade era sua única fonte de rendimento e tinha perdido tudo: a casa onde morava e os animais. Acabou presa.
Aqui chegados, tiremos, pois, as conclusões: a primeira é que jindungo no olho do outro é gelado de múcua. Com Julian Assange refugiado na Embaixada do Equador em Londres, o Wikileaks pôs-se a divulgar documentos comprometedores contra o actual Presidente daquele país e agora este diz que foi porque o australiano sujava com merda as paredes do edifício da representação diplomática.
A segunda é que a Ciência é dura e tanto dá até que fura. Com apenas 29 anos de idade, “Katie” Bouman demonstra a existência dos buracos negros, que foram anunciados há mais de um século por Albert Einstein, na sua teoria da relatividade. A terceira e última é que nem sempre quem chora precisa de mamar.

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