Opinião

Nepotismo africano

Sousa Jamba |

Em muitas sociedades africanas, altamente inspiradas pelo princípio de que a fonte da legitimação do poder pode ser a tradição, o nepotismo é aceitável. Este nepotismo pode, até, ser traduzido em privilégios impressionantes por parte daqueles que estiverem, em termos genéticos, muito próximos do poder dominante.

Nem todos os zairenses discordavam com o facto de que o cozinheiro do cunhado do então presidente Mobutu tinha, também, direito a guarda-costas e uma viatura Peugeot. Hoje, há debates acalorados na RDC sobre os males do nepotismo. Durante a presidência de Joseph Kabila, havia muitas histórias nas redes sociais a criticar os privilégios de certos membros da família presidencial.
Eu tinha 11 anos quando, em 1977, o então líder da República Centro Africana, Jean-Bedel Bokassa, foi feito imperador. Na altura vivia na comunidade de refugiados angolanos na Zâmbia que escutava avidamente os noticiários. Depois do noticiário, havia os comentários dos mais velhos — uma espécie de editorias para se fazer sentido do que realmente tinha acontecido. Alguns mais velhos achavam normalíssimo que Bokassa desse tantos favores à sua família. Outros não achavam nada mal em a Imperatriz de Bokassa possuir uma rede de negócios, um pequeno império. Três anos depois, em 1979, os franceses derrubaram Bokassa; ele tinha ido longe demais.
Em 1980, lembro-me do derrube do regime do Presidente William Tolbert na Libéria. Aquele foi um regime baseado num nepotismo gritante. Na Libéria, havia os descendentes dos afro-americanos, que constituíam uma elite super poderosa no país. O governo de Tolbert era, essencialmente, constituído pela sua família mais próxima. E isto estendia-se à elite económica; os grandes negócios da Libéria eram controlados por empresários libaneses com ligações a membros da família Tolbert.
Muitos anos depois, cerca de 2002, viajei para a Libéria e também para a República Centro Africana. Na República Centro Africana, passei dois dias numa conferência em que se discutia o futuro do país. A um certo momento, o filho de Bokassa, que tinha crescido no exílio em França, veio para a conferência. Os mais velhos, cheios de alguma nostalgia, receberam o filho de Bokassa com uma certa alegria; os jovens viam-no com uma certa curiosidade e, em certos casos, com indiferença.
Na conferência na República Centro Africana, lembro-me que os jovens só queriam falar de meritrocacia e, também, de uma cultura inclusiva. Sim, eles insistiam, poderia haver empresários, e alguns até com ligações com o poder central; porém, o que deveria contar mais era a utilidade dos projetos e a transparência. Na altura, havia a questão dos diamantes da República Centro Africana. Havia mesmo um princípio, não escrito, que a indústria diamantifera seria controlada por libaneses a trabalhar com parentes de políticos influentes. Os jovens já não consentiam isso. Eles insistiam que deveria haver programas de formação de jovens nativos para poderem eventualmente controlar aquela e outras indústrias.
O que está a acontecer no continente africano é que as pessoas são cada vez menos respeitadoras dos privilégios adquiridos por razões genéticas. Infelizmente, na República Centro Africana, o governo de François Bozize não deu valor ao que os jovens naquela reunião disseram; as práticas de Bokassa continuaram. Os filhos de Bozize passaram a controlar a economia (trabalhando com parceiros libaneses). Um dos filhos, que veio a ser ministro da Defesa, até tinha uma cadeia privada: quem o irritasse ou enervasse os seus próximos, ia logo para esta prisão privada. O filho de Bozize chegou, até, a ter uma frota de helicópteros que iam para as minas de diamantes e outras localidades do país sem ter que prestar contas a ninguém.
Na Libéria, a antiga bancária Hellen Sirleaf Johnson, não obstante tanta sofisticação e diplomas das melhores universidades do mundo e até um Prémio Nobel da Paz, provou ter dirigido um regime dominado pelos seus parentes próximos. O filho dela, por exemplo, controlava os serviços da inteligência; isso facilitou a protecção dos negócios dos seus amigos e próximos. Os filhos da Presidente Sirleaf Johnson, no fim da sua presidência, saíram altamente ricos. Um dos filhos acabou por ser detido e julgado por ter participado numa rede que imprimia o dinheiro local. Isto aconteceu depois da mãe ter deixado o poder. Em todo o caso, o facto de que parece haver unanimidade que tirar vantagens financeiras na base de ligações familiares é inaceitável, é indicação das profundas mudanças que o continente africano está a conhecer.

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