Opinião

N'gola Cine

Adriano Mixinge | *

No princípio de 1975, o N`gola Cine ainda existia: recordo-me de ver autocarros de cabina dupla, daqueles que vemos passar pelas ruas de Londres, parar em frente ao cinema. Ver filme ao ar livre é um luxo, que podemos desfrutar em várias cidades de Angola: Luanda é uma dessas urbes em que no período colonial, depois de 1945, o cinema foi uma das tipologias da “arquitectura tropical” adaptada ao clima e ao modo de vida das pessoas.

O N`gola Cine já não existe como tal. No lugar em que estava situado está prestes a surgir um shopping com cinema, que dará outro ar e oferecerá novas cores aos moradores da zona. Mas,  “N`gola Cine” é, também, o título da exposição do artista angolano Yonamine a ser inaugurada na próxima quinta-feira, 17 de Maio, às 18h30, na Jahmek Contemporary Art Gallery, nos Coqueiros. Não é, somente, pelo nome: a história do cinema está  relacionada com a História de Angola.
O N`gola Cine já foi um país: saíamos das casas das nossas famílias - o país da infância – e íamos lá ver, nas "matineis", qualquer filme, e o Trinitá Cow Boy Insolente era um deles, para sonhar com aventuras - o país do futuro. Dinis Canhanga - o pioneiro que içou a bandeira no dia da Independência de Angola - frequentava o N`gola Cine.
Todos nós - o Dinis e a rapaziada das Cês e das Bês, das casas redondas e dos prédios do Simão Toco, do Caputo e dos Ás, incluindo as que residiam à beira da rua D. João II (hoje Lino Amezaga) - vivíamos ali bem perto do N`gola Cine sem saber que o filme que nunca seria projectado no seu ecrã, afinal, era aquele em que, de algum modo, nós éramos protagonistas.
No princípio de 1975 o Yonamine e eu “cruzámo-nos” na zona: ele acabava de nascer, eu já tinha quase nove anos. Depois, durante anos, íamos todos ao N`gola Cine, aos fins de semana: limpos e bem vestidos, acompanhados por um adulto. De mãos dadas iam os menores, não importando se fosse nosso irmão, primo que estava de visita em nossa casa ou filho da vizinha: a transpiração da palma das mãos irmanava para sempre. Os quase adolescentes distinguiam-se porque já não usavam nem calções, nem bermudas, andavam de calças compridas: eram os que levavam os bilhetes e, antes, compravam bombó com ginguba ou quitaba na velha de cócoras vendendo na esquina do passeio empedrado, mesmo defronte a entrada.
Não sabíamos, mas agora já o sabemos, somos partícipes de outro filme, aquele que fazemos no nosso dia-a-dia em Angola: é essa interminável história que Yonamine nos convida a revisitar de maneira crítica.
 Na exposição, “N`gola Cine” é uma metáfora sarcástica que o artista plástico Yonamine nos propõe para analisar, com senso comum e olhar emancipado, a história mais recente de Angola. As colagens - rasgadas, intervencionadas, coladas, riscadas, superpostas - que são  já hoje uma das marcas distintivas da primeira fase importante da trajectória do artista também estarão na amostra.
É melhor irem vê-la para o confirmarem: “N`gola Cine” é uma exposição/instalação que representa a história de quarenta e três anos de Independência Nacional (1975- 2018) "estendida" - no sentido coloquial do calão luandense que significa criticar à exaustão - sem qualquer deferência que não seja aquela que os limites da estética e da reflexão política impõem.
 Yonamine recorda bem o ambiente de antes e durante as "matinées", na época determinada: "Sentir a emoção do filme sem estar dentro do cine; de comprar bilhetes na candonga quando já estavam esgotados na bilheteira e das bichas enormes para comprar bilhetes para ver filmes que ficavam meses a passar até a fita riscar toda".
“N`gola Cine” de Yonamine  inscreve-se, pois, na reutilização da parede e do estendal como suporte às vezes real e outras evocado, para falar tanto sobre as sombras da história como sobre a luz da independência criativa.
Estamos em 2018: o estado de conservação dos outrora belos cinemas – os fechados, os semi-fechados e os ao ar livre - em Angola, é um autêntico desastre. O desaparecimento do N'gola Cine empobreceu  os moradores da zona, privou-os de uma alternativa de lazer e de socialização laica e republicana importantíssima, num entorno urbano onde, no entanto, apesar de  existirem outros equipamentos - escolas, mercado, farmácia, campo de futebol, estação de autocarros, diversos comércios e  igrejas - poucos são os equipamentos artísticos e culturais. Ainda  bem que estão a requalificar a zona.
Urge restaurar os cinemas que, em todo o país, estão num severo estado de degradação e fazer com que eles voltem a existir com novas funções, que permitam oferecer opções saudáveis e instrutivas de diversão. Devemos evitar que outros cinemas desapareçam para ao “país da infância” e ao “país do futuro” sobrepor o “país em que vivemos” e o “país imaginado”. E, talvez, então, como acontece nas colagens de Yonamine, projectaremos nos ecrãs e gravaremos na memória este caos belo, trágico e fecundo que é o filme das nossas vidas.

* Historiador e crítico de Arte

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