Opinião

No curso do grande rio cenas e protagonistas (1)

Arlindo dos Santos

Cheguei ao Dondo aos dezassete anos. Com toda a força que naquela idade se tem, com o fulgor da ânsia da descoberta, também com o acanhamento próprio de quem tinha vivido até aí, exclusivamente, no ambiente que nunca deixou de ser mítico e suis generis do Libolo.

Na vila de Calulo e a espaços no seu interior bravio. Gentio, primitivo, distante do desenvolvimento e da liberdade. Nunca adivinhei que naqueles matos cerrados se desenvolvia em estágio, um embrião de figuras que marcariam a população e a tornariam diferente. Muitos nomes viriam a mostrar-se mais tarde em muitas áreas.
Nunca me senti inferior aos do Dondo. Agarrei-me ao velho princípio, mais velho que o próprio Dondo, segundo o qual, ter-se amor à terra em que se nasceu não é simples mito. Facilmente superei os que desfaziam Calulo, arvorando vantagens por via das ruínas históricas, dos edifícios da época em que o Dondo foi a maior feira comercial do Reino. Do comboio, do Grande Rio e da Barragem que já distribuía energia. Não tardou que, pouco tempo depois de ter chegado, passasse a liderar os grupos juvenis que foram surgindo. Uma habilidade, um dom, dos que nascem connosco. Até na tropa portuguesa onde ingressei a partir do Dondo eu, soldado condutor auto-rodas, convenci alferes, tenentes e até capitães, com a minha retórica. Eu soube sempre falar e convencer quem me consegue ouvir. Mas atenção, que não saia deste comentário a ideia de elevação de auto-estima ou de pura vaidade pessoal. Quem me conhece sabe que sou precisamente o contrário.
Vou, entretanto, ao que interessa. As disputas e rivalidades naquela época não podiam ser comparadas (como poderiam ser?) com os conflitos de cidadania, os ideológicos ou os étnico-regionais, já existentes naturalmente, muito menos com os de hoje. Estava muito distante das ideias que marcam os pensadores contemporâneos, os ditos cientistas, eu e os meus companheiros só conhecíamos a ideologia do futebol e da folgança.
As brigas entre Dondo e Calulo, vinham de longa data. Eram sobretudo provenientes de jogos de futebol que em diversas épocas, opôs libolenses como Chavito, Capiço, Toneca Campos, Ruy Aníbal, Kitinango, Isidro Costa e companhia, aos de beira do Kwanza como Guilherme Mendes, Campas Nunes, Sérgio Vilarigues, Mário Oliveira, Menga Kikuamanga, Cecílio Paixão, Arlindo Torres e outros. Mais tarde, vieram mais novos jogadores e de outra qualidade, casos de Mangala e Zeca Portalegre no Dondo e de Quintas e Zeca Santos em Calulo, entre outros nas duas vilas rivais. Há um “trumunu” raivoso que marca essas renhidas disputas. Em tempo que não sei precisar, o famoso Chavito Chaves, cliente assíduo de uma boa confusão, no ambiente inóspito e hostil do Dondo, passou-se dos carris e deu entrada em campo ao volante de uma camioneta em alta velocidade para atropelar o árbitro desse jogo que prejudicava Calulo. Ainda hoje se recorda a cena. Na verdade, naquele tempo, muito antes da minha chegada, as rivalidades tinham um figurino bem diferente.
Cheguei ao Dondo em 1960. Um ano crucial em que se fermentava a revolta que viria a transformar Angola. Um dia, o meu pai já estava no Dondo e disse-me, “vem, estamos mais perto de Luanda, a barragem vai dar muita vida a isto, Angola vai crescer”. E eu fui. Para vender fuba e peixe, farinha torrada, açúcar branco e mascavo, panos de pintado e riscado, cigarros francesinhos e caricocos, sabão e petróleo, cacusso seco e escalado. A partir das sete da manhã de todos os dias, até às oito da noite, com intervalo de uma hora para o almoço. A folga era ao domingo, para jogar futebol ou para descansar da farra de sábado à noite.
Por essa altura, os comerciantes do Dondo já haviam criado a “Cacilda”, uma cooperativa que, na base de um esquema bem trabalhado e obedecendo a princípios básicos de adesão livre e controlo “democrático”, sublinho o democrático porque era termo pouco utilizado naquele tempo. Na base de um homem, um voto, decidiu-se por uma espécie de associação que garantia o retorno e o lucro do capital investido, de harmonia com a sua participação. A cooperativa fornecia bens alimentares e industriais à imensa população portuguesa, técnicos e operários que se estabelecera em Cambambe, onde iniciaram (naquele altura praticamente concluída) os trabalhos de construção do maior empreendimento hidro-eléctrico do chamado império colonial português. Nesse inovado modo de comércio, era garantida a participação de todos os que pretendessem fazê-lo, e fiquei, pela primeira vez, a conhecer uma regra básica do associativismo.
A casa de José da Silva Ramos, onde eu trabalhava, era das que mais clientes possuía e eu senti-me, em pouco tempo, uma peça importante da engrenagem do comércio retalhista daquele tempo. Integrei-me facilmente no modo de vida do Dondo, da diferença notada na utilização do Kimbundu. E comecei a criar amizades e a apreciar o peixe mais saboroso que o Kwanza e as lagoas que o marginavam produziam.
Durante muitos anos pensei que a choupa era um peixe exclusivo das lagoas circundantes do Kwanza. Afinal, não era. Comer uma choupa à maneira só mesmo na “Adega Machado”, sítio apelidado pelo Marito Oliveira, um sportinguista só superado na sua devoção ao “leão” pelo tio, o Mário de Oliveira da EVA, marido da Pequenita de Matos, uma dupla leonina que Tarique, Mário Palege, Jorge Oliveira, Cardona, Santiago ou outros “lagartos”, todos juntos, não conseguiam bater no seu fanatismo.
A tal adega de que falo acima, era o “Familiar-Bar”, restaurante da dona Fátima Machado, a dona Fada, esposa do senhor Carlos Machado, o irmão mais velho do Cachoné, esse mesmo, o Elvino Pimentel Machado, o mulato mais bangão do Dondo, o que mandava música, o que vivia em Luanda e só vinha à terra em visita de matar saudades. O casal Machado eram os pais da Bé, quem pode esquecer os olhos grandes e lindos da Bé, da Balinda, da Titi e da Geny e dos dois rapazes Kito e o Orlando.
Havia os que gostavam mais do Polar-Bar ou do Bar do Padre. Ma os jantares no Familiar-Bar, a nossa “Adega Machado”, não eram refeições. Eram sempre uma confraternização. O Boy Vasconcelos, o Toninho, o Velhinho Kangundo, o Ramos Vaz, o Churchill, o Albino Rodrigues, o Zeca Ramos, éramos todos uma malta do caraças. Bebíamos vinho verde branco porque nos diziam que era o melhor para acompanhar a choupa do rio, a que se alimenta exclusivamente com aquele capim que margina o leito enorme do Grande Rio, o “zungalo”, como me lembro que chamavam a esse capim. Responsável pelo sabor especial desses peixe sem igual. O cacusso é de outra estirpe, é peixe de lagoa, não se compara à choupa de rio que nós comíamos. O cacusso original deixou-se ultrapassar pela tilápia de origem desconhecida uma espécie que é hoje criada em viveiros e alimentadas com ração especial, uma tentativa, pelos vistos bem sucedida, de imitação do verdadeiro cacusso.
Deixo-vos, por hoje. Com a esperança de que o coronavírus não nos retire a possibilidade de recordar as muitas cenas que vivemos no percurso paralelo ao curso do Grande Rio. Também com a esperança de vos ter deixado água na boca. Para a semana falarei de outros factos e outros personagens. Uma boa semana, com o devido distanciamento.

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