Opinião

No renascimento do mosaico cultural nacional

Belmiro Carlos |*

Paira sobre o País uma atmosfera de partículas cheias de almas que nos parecem virginais, exaltando canções do alvorecer da Pátria, então congelada num concentrado de egoísmos desenfreados, de gente que acreditou reter, ad aeternum, os céus e a terra de todos “os outros”.

Desde a entrada em cena da  "Perestroika" e da famigerada economia de mercado, com as suas tristemente célebres crises e abalos sociais, no compasso de um genuíno capitalismo selvagem,  que o Artista em Angola não conhece uma política estruturante gizada a jusante e a montante das suas reais necessidades.
Foram literalmente frustradas todas as tentativas de implantação de projectos de curto e médio prazos, de impacto social e profissional, real e duradouro, para o fomento da actividade artística e inserção social imediata do Artista, que sabemos ter-se tentado neste País. Cinicamente, foram apoiados projectos que acirraram a intriga, acentuaram   a desunião  e corroeram o sentimento de Classe. Propositada e ostensivamente, confundiram  a árvore com a floresta.
Desse modo, elegeram e municiaram uns tantos artistas, a maior parte de qualidade técnica e moral duvidosas,  que passaram, entretanto, a ser exibidos como raridade e  sumidade artística. Para sustentar a farsa, foi posta em marcha uma monumental máquina de lavagem cerebral. De tão plástica, a cosmética resultou numa guerra sem rei nem roque. Como era expectável.
Tal foi a promiscuidade, que o pré-concebido plano de divisão do mercado artístico angolano  assumiu  e introduziu, naturalmente, regras tão perversas e amorais como o teste do sofá, a constituição de grupos herméticos, os monopólios e oligopólios, a lei da rolha, a adulação a pessoas... Nunca antes visto!
Enfim, os artistas ficaram indefesos e passaram a ser um mero produto descartável, “entregues ao cordeiro”, como escória social. E instalou-se, assim, o mercado de opacidades artísticas que estamos com ele.
Para sobreviver, o artista passou a estender as mãos aos seus próprios carrascos, sacrificando mesmo os seus pares, quando necessário. Outros, pura e simplesmente, retraíram-se ou abandonaram o metier e engrossaram a bicha, no muro das lamentações.
Nesse atormentado ambiente, as expressões artísticas da nossa angolanidade, porque não serviam os macabros desígnios da entourage, foram desactivadas e  desencorajadas. Luanda ficou transformada num caldeirão de insanos e insaciáveis tubarões, que mantêm sob mira incautos artistas que, ensanduichados no funil, lutam, desesperados, por uma nesga que lhes permita chegar ao pódio da fama, mesmo que podre.
Alienação total!
Vénias à mediocridade!
Rochar não são “esperanças idosas”, mas sim sinónimo de fracasso total.
Viva o facilitismo, a "xuxa" da comadre, o dólar do imperialismo americano!
Viva o Hip-Hop, o RAP, o Zouk, o R&B e ... o Kuduro !
Abaixo o Sêngula, o Kilapanga, o Kintueni, o Sungura, o Tchiyanda,  o Semba...
É nesse clima que, a partir de Luanda, foi alimentada uma visão egocêntrica da nossa cultura,  passando-se a ideia de que só é comercial e culturalmente válido o que é produzido na capital do País, com todos os prejuízos político-culturais, morais, sociais e económicos daí decorrentes.
Deixou de haver acções práticas, assentes  em práticas consistentes para que as nossas expressões artísticas regionais - e por essa via as nacionais - fossem valorizadas e massivamente promovidas, mesmo dentro do País.
Finalmente, e na sequência dos diferentes naipes que vão sendo atirados à mesa, queremos acreditar que os olhos de lince do novo Presidente da República vão detectar e mandar ligar a tomada, abrir as janelas e escancarar as portas, para que se faça luz e fé e se erga das cinzas, qual fénix, inclusivo e robusto, o movimento nacional para o renascimento do mosaico cultural angolano.
Para se corrigir o que está mal e melhorar o que está bem!
A ver vamos!

* Músico e compositor

 

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