Opinião

Nós e a corrupção

Luísa Rogério

Precisei de deixar aquela que trato carinhosamente por carroça nas instalações da empresa. Como a viatura ficaria alguns dias parqueada achei correcto oferecer uma gratificação básica. Para todos efeitos, a famosa gasosa faz parte da praxe entre nós.

 A prática está tão profundamente arraigada na nossa sociedade que não seria exagero afirmar que quase faz parte dos nossos usos e costumes. Imaginem então a minha reacção quando o colega da protecção física se recusou a receber o dinheiro. Insisti, meio sem graça. Disse que não pretendia ofender ou algo parecido. Queria somente expressar gratidão por cuidar do tão precioso bem. Em Luanda é comum pagarmos taxas paralelas por serviços que nos prestam, mas também por tudo e por quase nada. Contrariando o hábito o colega foi peremptório. Já está a agradecer. Estou apenas a fazer o meu trabalho.
Restou-me reiterar a gratidão e bater em retirada. Apesar de não ter tropeçado, busquei conforto no ditado em língua kimbundu muito citado no meu núcleo familiar. Em determinados momentos só conseguimos caminhar porque a vergonha nos atinge na cara e não nas pernas. Crescem as razões que me remetem para a atitude do protector físico, um senhor muito discreto e atencioso em igual medida que, mesmo com o relativo atraso do salário, declinara a recompensa extra por ser zeloso. Descobri posteriormente que ele é sempre assim. A índole faz com que respeite a ética e deontologia no exercício da sua profissão.
Não pensaria tanto no caso se a realidade fosse outra. Os valores estão de tal maneira invertidos que um gesto comum noutras latitudes aqui ganha particular realce. Ao abordar o assunto com minha mãe, esta simplificou as respostas. “Corruptos não são apenas eles. Corruptos somos todos nós”. Limitei-me a concordar, silenciosamente, com a linha de pensamento da Dona Guiducha. Contrapor o quê diante das evidências? De facto, a corrupção manifesta-se igualmente por intermédio de pequenas acções. Quando desembolsamos valores não regulamentados por um serviço, estamos a alimentar exercícios que afirmamos deplorar. Agilizar a efectivação seja do que for com algum tipo de contrapartida não mais é do que alinhar em esquemas corruptos. 
Desnecessário lembrar que a corrupção constitui um dos maiores flagelos das sociedades modernas. Em Angola até as autoridades reconhecem que a prática tem tentáculos profundos. Está institucionalizada, embora nem sempre seja fácil provar denúncias de corrupção. O país aprimora mecanismos de combate à corrupção, há legislação e vontades políticas anunciadas, mas os rankings mundiais não mentem. Ocupamos lugares desonrosos no mundo. Por ser politicamente correcto e porque assim o recomendam as convenções sociais, condenamos a corrupção atribuída a instituições governamentais e organismos públicos. Exortamos ao cumprimento de políticas voltadas aos ditames da boa governação, mas poucas vezes nos questionamos em relação às responsabilidades individuais.
De um modo geral, é comum pretendermos tirar vantagem das situações. No trânsito ultrapassamos pela direita com a maior das tranquilidades, fazemos filas infinitas porque cada um de nós se sente no direito de chegar primeiro do que a maioria cumpridora. Quase ninguém estranha quando pessoas ostentam bens muito superiores aos seus rendimentos, ainda que não esteja à altura de fazer empréstimos bancários para os gastos. Não é raro pedirem a bênção de padres, pastores e xirangas disfarçados de mentores espirituais para que “venham mais de onde saíram estes bens”. Parentes, familiares e amigos aplaudem o suposto sucesso. E ainda dizem: “trabalhaste!” Caia pois a máscara da hipocrisia. Somos potencialmente corruptos!

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