Opinião

Nova frente no combate aos incêndios florestais

Filomeno Manaças *

Duas tragédias no mês de Junho, uma em Portugal e outra no Reino Unido, suscitaram o envio, pelo Presidente José Eduardo dos Santos, de mensagens de condolências ao seu homólogo português, Marcelo Rebelo de Sousa, e à primeira-ministra britânica, Theresa May.

As mensagens presidenciais não são coisa de pouca relevância. Mesmo a mais curta das missivas tem o condão de reflectir sempre uma posição de Estado, porque é uma dimensão do exercício de diplomacia do Chefe de Estado e do país que representa, e visa dar nota do seu posicionamento e dos seus concidadãos sobre um determinado assunto ou acontecimento.
Delas podemos retirar duas notas essenciais da diplomacia política que caracteriza o Estado angolano: a solidariedade humana e a defesa de princípios nobres.
O incêndio florestal em Pedrógão Grande, em Portugal, e o que devastou em Londres um prédio de 24 andares, com um saldo, no conjunto, de 144 vítimas mortais e mais de duas centenas e meia de feridos, constituíram-se num acontecimento que tocou a alma angolana e nos deixou estarrecidos.
Portugal é dos países onde o histórico de incêndios florestais na época do Verão - e é este o tema desta conversa - aponta para um número superior à média europeia, quer eles sejam de origem criminosa (estima-se em 75%), quer determinados por factores meteorológicos e geofísicos.
Segundo rezam as estatísticas não houve, de 1980 a presente data, um único ano em que não tenham sido registadas áreas ardidas e ocorrências de incêndios florestais, tendo, nesse aspecto, os anos de 2003 e 2005 sido os piores, com 425.839 e 339.089 hectares devastados pelo fogo, respectivamente.
O incêndio florestal de Pedrógão Grande despoletou uma série de debates sobre a questão. Sobre a necessidade do planeamento e ordenamento florestal em Portugal, que para uns não existe, mas que para outros precisa de ser melhorado. Desenterrou propostas e projectos engavetados e cujos autores ou conhecedores fizeram por escalpelizar o seu conteúdo. Reclama-se um novo olhar sobre o mosaico florestal, técnica que, segundo os entendidos na matéria, permite que haja um sincronismo entre as áreas naturais e comerciais, assegurando assim melhorias na gestão dos produtos e serviços das florestas, como a preservação do habitat e a conservação da biodiversidade. Em linguagem mais simples, significa que, por cada 3 hectares de eucalipto, conserva-se 1 hectare de ecossistema natural e, por essa via, a paisagem florestal permanece com mais equilíbrio ecológico.
Para uns, é importante que isso se faça, à custa da redução do espaço do eucalipto, porque, argumentam, “é o que mais arde”, ao passo que outros contestam essa versão.
Portugal tem ao seu alcance os recursos necessários e os meios técnicos e tecnológicos que lhe permitem revolucionar e dar combate aos incêndios florestais de forma mais eficaz, sem estar totalmente dependente do equipamento que até aqui tem sido tradicionalmente utilizado e sem que, todos os anos, quando chega o Verão, altura em que as temperaturas atingem os 40º C, o país fique com a respiração cortada porque não sabe quando e onde vai ocorrer um incêndio florestal de grandes proporções, susceptível de alterar toda a agenda política e social.
Portugal tem na sua lista dezasseis rios importantes: tem o Tejo, o Douro, o Guadiana, o Minho, o Mondego, o Zêzere, o Sado, o Sorraia, o Vouga, o Tâmega, o Lima, o Cávado, o Côa, o Mira, o Águeda, o Alva, além dos seus afluentes.
O concelho de Pedrógão Grande, onde se deu a tragédia, é uma região incrustada na bacia dos rios Zêzere e Unhais. A Madeira, que não tem rios tão importantes como tem Portugal continental - pois possui apenas alguns cursos de água ou ribeiras -; onde o incêndio de Agosto do ano passado provocou a morte a três pessoas e consumiu 22% da área total do município do Funchal, acaba de dar um passo importante no sentido de revolucionar o combate aos incêndios florestais, ao decidir avançar, já este ano, com um conjunto de medidas, entre as quais se inclui uma faixa corta-fogo à volta da cidade.
*  Director Nacional de Publicidade, a sua opinião não vincula o  Ministério da Comunicação Social

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