Opinião

Nova novela na crise da FNLA

Bernardino Manje

A crise na direcção da FNLA parece estar longe do fim. Quando ainda estão na retina as divergências havidas entre o líder fundador do “partido dos irmãos”, Álvaro Holden Roberto, e o então secretário para a Informação, Lucas Ngonda, hoje presidente, e entre este e Ngola Kabangu, que também já chegou a ser presidente, surge uma nova novela.

Agora a contenda é entre o secretário-geral e alguns membros da direcção do partido, na sua maioria jovens, que acusam Pedro Mucombe Dala de várias irregularidades, desde violações graves dos estatutos, exonerações de membros da direcção do partido a nomeações de familiares e amigos não militantes do partido.
Sobre Pedro Dala, que foi o candidato da FNLA a Vice-Presidente da República nas últimas eleições, pesam ainda acusações de gestão danosa do património, indicação dos filhos como comissários da CNE e outras irregularidades que atentam contra os diplomas reitores do partido. As acusações não ficam por aí. Dala é, igualmente, referenciado como sendo incompetente, mentor de intrigas, calúnias e difamação.
O presidente do partido, Lucas Ngonda, que tem sofrido pressões de um grupo de militantes afastados da direcção do partido, tais como Fernando Pedro Gomes, Ndonda Nzinga e Tristão Ernesto, não é o alvo directo desta nova corrente de contestação, que se manifesta, sobretudo, nas redes sociais.
Mas os contestatários não deixam de sublinhar que, nas suas acções, Pedro Dala conta com a protecção do presidente. Por isso, pedem a Lucas Ngonda que afaste imediatamente o secretário-geral, sob pena de o próprio presidente vir a ser, também, sacrificado.
Quem esteve na última reunião do Comité Central da FNLA diz que o ambiente foi bastante pesado no Complexo 15 de Março, em Viana, tendo mesmo um grupo de membros do órgão de direcção do partido pedido o afastamento de Pedro Mucombe Dala e a sua substituição por João Capitão, membro do Bureau Político.
Contactado pelo Jornal de Angola, o secretário para a Informação, Jerónimo Makano, refutou as acusações que pesam sobre o secretário-geral, sustentando que Pedro Dala, natural do Cuanza-Norte, está a ser vítima de tribalismo praticado por um pequeno grupo de naturais de Sanza Pombo, terra natal do presidente. Os mesmos elementos, disse, foram afastados do secretariado do Bureau Político por mau desempenho nas suas funções. É neste ambiente de acusações e contra-acusações entre os membros da direcção que a FNLA vai caminhando. Ao invés de se preocupar com a disputa política e o alcance do poder, ainda tem de tratar da reconciliação interna, que, diga-se, tarda a acontecer.
Desde as primeiras eleições na história do país, a FNLA, o primeiro movimento de libertação nacional, antes do MPLA e da UNITA, tem baixado a sua representatividade. Em 1992, conseguiu 2,40 por cento do total de votos e elegeu apenas cinco deputados. Em 2008, teve 1,11 por cento, baixando a representação no Parlamento para apenas três deputados. Em 2012, subiu ligeiramente a percentagem de votos, mas não foi suficiente para aumentar a representatividade na Assembleia Nacional, que voltou a cair para dois parlamentares.
Nas últimas eleições, de 2017, muitos já vaticinavam o fim do partido liderado por Lucas Ngonda, mas a FNLA, graças, sobretudo, aos seus tradicionais militantes, conseguiu evitar a extinção. Contudo, logrou eleger apenas um único deputado, o próprio presidente.
Não restam dúvidas de que, se as divergências no seio dos “irmãos” persistirem, o partido não vai conseguir eleger nenhum deputado em 2022 e, na pior das hipóteses, pode até ser extinto, pois a lei estabelece que a formação política que não consegue pelo menos 0,5 por cento dos votos desaparece da cena política. Tal cenário seria muito mau para um partido que se bateu pela Independência do país.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia