Opinião

O abuso da repetição

Adriano Mixinge |*

Nem sempre a crónica que publicamos é, necessariamente, a que desejaríamos. A inspiração não é nada que possamos controlar com exactidão. Mesmo que tentarmos ser disciplinados, para evitar estar refém da musa, custa prever os resultados de uma crónica enquanto ela não estiver terminada, sobretudo ao querermos evitar ser repetitivos.

Todos os temas têm vários ângulos e, numa crónica, não é possível abordá-los todos, mas, ainda assim, o pior que pode acontecer ao cronista de um jornal diário é ser repetitivo, deixar de ser pertinente: ter medo de pôr o dedo na ferida, deixar de escrever sobre aquilo que importa e ignorar aquilo que está a acontecer, a longo prazo, podem ajudar a desactivar o escriba.
Ao contrário do que muitos pensam e sendo verdade que, o abuso da repetição e da imitação, dos lugares comuns e da mesmice como opção de vida, estratégia de sobrevivência, de fazer as coisas de um modo conservador para projectar-se ou acomodar-se socialmente, incluindo a inconveniência das escolhas que fazemos, em certos segmentos a sociedade angolana atingiu os níveis mais insuspeitos, o certo é que a disrupção construtiva e a ousadia continuam a ser muito úteis.
Não é preciso ser um observador subtil para dar-se conta de que, nem sempre pelas melhores razões, os indivíduos e, por vezes, certas sociedades optam por seguir as modas que as equilibram e orgulham, mas, também, dão origem a modismos nada interessantes, repetitivos. Neste sentido, é evidente que deveríamos estar mais vigilantes.
A um nível muito primário, sucede amiúde, enquanto andamos pelos becos, ruas e estradas que cruzam os bairros da periferia e da cidade, sem serem nem uns nem outros franquias, vemos muitas pessoas, escolas, igrejas, casas, boutiques e lojas muito parecidas umas das outras: se estivermos distraídos podemos já ter saído de um centro comercial, loja, bairro, rua ou casa e inconscientemente pensarmos que ainda estamos no mesmo sítio. Ou estarmos já noutros destes sítios e pensar que ainda estamos no que estivemos anteriormente.
Se as classes sociais mais acomodadas criaram os seus espaços, de convivência e de autorrepresentação, o mesmo acontece com os mais necessitados e ou carenciados, de braços cruzados é que não ficaram, mas o que é medíocre é que são muito repetitivos: para uns existem os supermercados Kero, as Casas dos Frescos e os Candandos, para os outros existem mercados de baixa renda em toda periferia, várias “praças da madeira” nalguns bairros e inclusive até mesmo há uma praça chamada Mutamba, na zona do Bita, lá para os lados do Estádio 11 de Novembro, aspirações é que não faltam!
Sabemos que onde quer que se instalou, sustentando na massificação dos produtos e da flexibilidade das cadeias de distribuição, a economia de mercado ajudou a resolver o problema da oferta e da demanda, mesmo que não necessariamente o do consumo: de bens alimentares, de roupas e de serviços, mas também de futilidades. Não sendo propriamente algo inútil, até a economia do conhecimento também passou a fazer parte do “supermercado do saber”: formações regradas e não regradas online, masters e licenciaturas também podem ser adquiridas não propriamente por vocação e/ou talento, mas por imitação, para não estar fora das exigências dos tempos.
Mas as que mais me surpreendem, nas excessivas repetições que vejo, são as repetições de estilo: em alguns círculos vemos rapazes ou senhores com o mesmo corte de cabelo, fios de ouro no pescoço e no pulso, com gestos, poses e maneiras de vestir e de falar idênticos. Ou, pelo contrário, em caso de carência e de precariedade, com o cabelo despenteado, calças rotas e roupas sujas, com o mesmo visual de maluquice ou de descompensação psicológica.
É como se fragmentassem tanto a carência como a abundância e as espalhassem por segmentos, permitindo que seja possível ter tudo, quando não é original, então, que seja a cópia: estilos de vida, objectos de uso ou de luxo, as casas e os seus desenhos interiores, os motoristas e as babás, os pastores, as igrejas e os templos, a fé e as empresas, o saber livresco e wikipédia. É uma pena!
Mas, depois, também se repetem pelos bairros e ruas da cidade: as raparigas com tissagens, pirucas, tranças e penteados semelhantes, a tal ponto que tendemos a ver pessoas que julgamos conhecidas, multiplicadas por todos os sítios. É um horror: isso faz que nos assustemos, constantemente, nessa de perceber se a pessoa que estamos a ver é mesmo a pessoa que conhecemos. Vezes houve em que, pela impressão que temos de longe ou de costas, estivemos a ponto de abraçar alguém que, depois, vendo bem, era mesmo desconhecido.
Ser original e criativo não é fácil, mas ser repetitivo aborrece, farta: até nas coisas mais simples façam o favor de ser genuinamente diferentes, para que tenhamos uma sociedade mais rica e interessante.

* Historiador e crítico de arte

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