Opinião

O baile de máscaras da globalização

Manuel Rui

Na minha terra, o Huambo quando era Nova-Lisboa colonial, no carnaval faziam um corso, atiravam pacotinhos de fuba uns aos outros de cima das carrocerias das camionetas enfeitadas, ovos, bisnagas de mau cheiro e outros apetrechos e adminículos que faziam a alegria, mais os bailes de máscaras com aquela anedota antiga que a moça falou para o cavalheiro “não danço com mascarados, por favor tire a máscara.

Qual máscara?” Ou uma que eu aprendi com um taxista, mesmo, não era carro de aplicativo, que ele foi de férias à sua terra no sertão, estavam num forró daqueles, foi buscar a moça para dançar e ela falou “não estou dançando. Pois, por isso mesmo, para não ficar nesse abandono é que eu a vim buscar.”
Pois. Se fosse possível dois repeleis cruzados no tempo, iriamos chegar à conclusão que o mundo já andava mascarado faz muito tempo antes de se corovirusar. Mascarava-se a fome, a insuficiência de assistência médica, as ditaduras democráticas, as poluições que ninguém repara como o carbono da fórmula um, o excedente de comida que vai para o lixo saído dos pratos dos que podem comprar. Enfim, a mascarada toda que a pandemia quando nos impôs a máscara desmascarou-nos a todos. Santuários como Meca ou outro de milagres como o de Fátima, não conseguem interpor-se aos desígnios de satanás, mais forte que as divindades e o mundo maligno aproveita a pandemia para prosseguir nas perversões. Até o bispo brasileiro dos milagres anda em poupança milagreira.
Na minha infância, adorávamos as árvores. Trepávamos nas mangueiras e nespereiras para colher a fruta, corríamos pelo mato, nadávamos nos rios e, na adolescência, para salvarmos os que estavam reprovados por faltas, queimámos o livro do ponto e fomos parar à polícia.
Agora, por razões de saúde de quem está no virar da página, vejo na televisão ou na rua, quando o carro me vem buscar para exames médicos, o cortejo de gente como eu com o rosto tapado com uma máscara. Isto incomoda os assaltantes de bancos que se mascaram e, tarda não tarda, em nome dos direitos individuais irão propor uma providência cautelar para os que usam máscara sem ser do ofício.
Nesta espécie de prisão domiciliária em que me encontro, escrevi um livro de poesia sobre a palavra e um trabalhador da palavra situado na era do ferro. O livro é pleno de erotismo e mulher como a origem de tudo mais a água dos rios que salgam quando entram no mar.
Haja o que houver é sempre a palavra que nos leva a lugares que não existem. Sabores. Cores. Que não conhecíamos mas passamos a conhecer aprendendo com o silêncio tantas vezes desrespeitado.
A palavra falada. Os sons. A palavra escrita, o papel. O cheiro das livrarias parecido com os aromas das frutas do mato como o loengueiro ou a árvore de maboques.
Estava a ser ouvido por dois médicos angolanos chegados a Lisboa para um inquérito. A situação dos pacientes evacuados para Lisboa. Estavam todos mascarados como vemos nos centros de atendimento de pacientes do covirus. Cabeça coberta, máscara, luvas, aquela bata que parece espuma transparente e, no fim, estávamos distantes, levantaram-se e pediram para eu me aproximar. Um entregou à minha mulher uma máquina fotográfica. Ficou um de cada lado e qual covirus. Um colocou o braço no meu ombro esquerdo, o outro no meu ombro direito e eu cada braço no ombro de cada um. “Sabe, a minha filha vai ficar feliz quando eu lhe entregar a fotografia com o escritor do Quem me dera ser onda.” “Espere, tenho aí uns exemplares de uma recente edição brasileira. E talvez arranje um romance para cada um de vocês.” Lembrei-me daquela salsa do meu amigo… “som angolano/é tã sabroso…” e pensei que não trocava aquela emoção pelo Euromilhões.
Tudo por causa da palavra. Num tempo em que se interromperam os beijos. Num tempo em que a cibernética já podia encher os estádios de futebol com tifosi virtuais, com as bancadas repletas, uns a lançarem tochas contra os outros e os policias a encenarem uma dança contemporânea com os porrinhos.
A palavra. O imaginário. Agora as máscaras foram apropriadas pela moda. Há máscaras de encantar. Outras com o desenho de uma boca. Outras com panos africanos e outras à Gorbachov, isto é, à glasnost, transparentes, mostrando o sorriso e parece que estas vão vingar.
Aqui há outra máscara. Não conseguem noticiar que a situação da pandemia em Angola não está tão má como em Portugal. Vamos fazer mais como então?

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