Opinião

O cheiro de Maria

Osvaldo Gonçalves

A Maria foi-nos apresentada pelo José, nos idos anos de 1980. Éramos novos. Solteiros e bons rapazes. Usámos todo o nosso sex appeal para levá-la, primeiro, à matinée, depois, à praia, por fim, à soirée.

 No filme da tardinha, vimos “Não Sou Digno de Ti” e no da noite conseguimos ludibriar os porteiros para ver “Mandingo”. Desconfiamos que foi em Maio.
Tinham-se despedido as chuvas de Abril e é por isso que nos lembramos do mês. Maria era boa moça. Prendada. E por isso não nos deixou ir além das conveniências. Da Maria, ficamos apenas com o cheiro. Um perfume misturado de muitos odores. Seriam rosas, seria baunilha? Que fragância!
Quando, já adultos, lemos “O Perfume”, de Patrick Suskind, lembramo-nos da Maria e duvidámos que Jean-Baptiste Grenouille, o protagonista, fosse capaz de reconhecer tal odor e de compará-lo a outro qualquer. Maria era única!
Muitos anos se passaram até voltarmos a sentir o mesmo odor. Há muito deixáramos de ser jovens. Já não éramos solteiros. Talvez já nem fóssemos bons rapazes. Mas a pessoa que tinha o mesmo cheiro não era a Maria. Tampouco tinha ido a uma qualquer matinée ou soirée. Nem nos passou pela cabeça convidá-la para ir à praia.
Vestia-se de forma muito diferente. Era mais ousada. Calçava sapatos de salto alto e usava tissagem.Isso, contudo, não a impedia de ter o mesmo cheiro. Ou foi o que nos pareceu. Por essa razão, quisemos saber mais sobre ela: chamava-se Meury e era, afinal, sobrinha da Maria. Também demonstrava alguma facilidade em sorrir. Podemos dizer mesmo que se ria por não ser um simples gargalhar, antes um esgar, embora sempre acompanhado de um som parecido com o de um sorriso. E fazia-o de tudo e de todos.
Meury tinha o mesmo cheiro que Maria ou um muito parecido. Duvidamos é que fosse tão única como ela. Tal leva-nos a questionar se, de facto, o odor de cada um é a sua essência, como afirma Suskind, no livro. Pelo que nos era dado a ver, Maria e Meury, mesmo sendo semelhantes nesse aspecto, eram diferentes em tudo o mais. Talvez devido ao facto de não possuirmos um odor assim tão marcante, tão peculiar, o impacto que Meury nos causava não fosse semelhante ao que originávamos nela. Se o odor é a essência e sem ela é como se a pessoa não existisse, é de supor que passássemos despercebidos.
A conversa foi curta. Aliás, não nos poderíamos ter alongado mais, por ser grande a concorrência e porque não era hora nem local para muita conversa. Mas Meury ficou-nos na memória, tal como antes acontecera com Maria.
Voltámos para casa a pensar em Meurye, naturalmente, na Maria. Não nos lembrávamos mais do sorriso matreiro nem da tissagem. Esquecemo-nos por completo das roupas ousadas. Apenas do odor. Só algumas semanas depois voltámos ao mesmo sítio. Foi por acaso que lá fomos dessa vez. Para comprar cigarros, água mineral ou algo assim. Mas, lá chegados, pusemo-nos de imediato à espreita, a ver se a víamos. Se víamos Meury. Ou se, pelo menos, havia o seu cheiro no ar. Mas, nada.
Ao fim de quase duas horas de espera, o amigo que nos acompanhava resolveu peguntar a um dos empregados. Mas, como a íamos descrever? Pelas roupas ousadas, pela tissagem, pelos sapatos de salto alto? Se o odor de alguém é a sua essência, apenas isso no restava. Porém, estava fora de questão falar nisso.
A descrição e o nome foram suficientes para que o solícito rapaz partisse em busca da pessoa que desejávamos reencontrar. Passados alguns minutos, estava diante de nós uma moça. A roupa era a mesma, os sapatos eram os mesmos, até os cabelos postiços pareciam os mesmos. E o odor muito menos. Não. Não era a Meury.
Afinal, quem era esta rapariga? “Chamo-me Rosemeury. A Meury é minha amiga como prima”.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia