Opinião

O colectivo pés descalços: Uma nova visão da cultura

Adriano Mixinge |

O trabalho que, desde 2012, o “Colectivo Pés Descalços” vem desenvolvendo faz-nos reflectir sobre a cultura e as artes como âmbitos que, bem pensados e geridos, abrem múltiplas possibilidades cognitivas, de empoderamento e de transformação individual e social.

O colectivo funciona como uma plataforma de livre criação, em que se cruzam e confluem as sinergias e o labor dos seus membros, com independência de acção, mas com princípios e visões semelhantes. Respeitam a liberdade individual, cada um deles tem o seu próprio percurso, mas, em conjunto, complementam-se: têm um espírito de grupo que corresponde mais à prática da colaboração, do coworking e da descentralização do sujeito criador tão caro à época pós-moderna.
Conhecendo os seus membros do “Colectivo Pés Descalços” - Januário Jano, Paula Nascimento, Ngoi Salucombo, Suzana Sousa, Adalberto Cawaia e Winnie Carmo -, com origens sociais, familiares e perfis profissionais diferentes, quase ficamos com a sensação de que a designação que escolheram para si é irónica, mas não, uma série de profundas e coerentes razões ajuda a lhes compreendermos.
Numa das poucas entrevistas que deram e que podemos ler na página do site Rede Angola que ainda continua online, entre outros aspectos programáticos, por um lado, afirmam ter-se inspirado naqueles para quem, na verdade, pretendem servir. Por outro, fazem eco do lugar secundário que, na nossa sociedade, ainda insistimos em atribuir à Cultura.
Além do mais, o “Colectivo Pés Descalços” trabalha sempre em contacto, - em Angola, na África e no mundo -, com o chão afectivo e cultural, sempre elástico e em mutação, sobre e desde o qual decidiram criar pensamento crítico, uma das ferramentas que utilizam para trabalhar pela mudança de mentalidade, contra os estereotipos e os lugares comuns e pela transformação positiva dos entornos em que agem ou dos eventos em que participam. Se admitirmos que caducados e anacrónicos que, - no seu entendimento que têm sobre o que pode ser a arte e a cultura no mundo de hoje e pelo uso de modos de funcionamento antiquados-, já estão a maior parte das associações e colectivos artísticos e culturais surgidos, no nosso país, nos anos 80 do século passado, resulta são e refrescante assistir as múltiplas vibrações, em Angola e no estrangeiro, do Colectivo Pés Descalços. Este colectivo é o responsável pelo Tedxluanda e muito recentemente, com o apoio do Goethe Institute organizaram, entre outras acções, a vinda a Luanda dos escritores José Eduardo Agualusa e Mia Couto. No estrangeiro, mesmo sendo um mérito individual, com a escolha da curadora angolana Paula Nascimento para organizar o programa “Foco em África” na feira Arco Lisboa 2019, por intermédio dela, o colectivo também contribuiu para pôr, definitivamente, o nosso país no mapa artístico e cultural do mundo, de um modo diferente do que terá acontecido em vezes anteriores: a curadora angolana é hoje, sem lugar a dúvidas, uma referência internacional e, como acontece com todos seus membros, o “Colectivo Pés Descalços” serve-lhe de colchão.
Neste momento da nossa história política, económica e sócio-cultural uma série de perguntas não se querem calar, a saber: em primeiro lugar, convém continuarmos a insistir no discurso da cultura como um factor identitário colectivo relativamente fixo ou será melhor, no mundo de hoje, entendê-la tal e como nos parece que o “Colectivo Pés Descalços” a vive, percebe e recria, sobretudo, como uma plataforma de possibilidades criativas vastas, multiformes, individuais e em constante mutação?
Em segundo, não seria melhor, de uma vez por todas, entendermos que o panorama da arte e da cultura em Angola não coincide, necessariamente, com o de uma “cultura angolana” única e que esta, de existir, a margem das problemáticas sociológicas e antropológicas que a enformam mais não é do que uma construção política herdada da época do partido único e que precisa ser reavaliado à luz das transformações da nossa sociedade e do mundo?
E, em terceiro lugar, convém ou não pôr mais ênfase na multiplicidade de culturas que, dia após dia, convivem, nas nossas sociedades, com diversos universos simbólicos, que ora convivem ora se degladiam, em diferentes espaços de legimitação, numa sociedade com vários partidos e perspectivas políticas e inúmeras possibilidades reflexivas, histórico-culturais e discursivas?
Está na hora de avaliarmos a possibilidade de que o “Colectivo Pés Descalços” seja declarada “associação filantrópica de utilidade pública” e permitirem-lhe competir em igualdade de condições com outras associações, fundações e grémios do género, se possível mesmo encarregar-lhe a gestão de algum dos nossos espaços culturais mais relevantes para melhor valorizamos o contributo deste colectivo para o emergir de uma visão da cultura que abra novas possibilidades de conhecimento e de fruição estética.

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