Opinião

O desporto na vida

Matias Adriano

Oiço, num programa interactivo de rádio, um ouvinte que dizia, mais palavra, menos palavra, que a vida perdeu graça sem actividade desportiva. “Pagar o pacote mensal da Dstv, nos dias que correm, é um desperdício. Sem jogos para acompanhar é dinheiro no lixo.” Sustentou a sua tese. Havia alguma lógica na reacção. Não é sem razão que se diz que desporto é festa, e na sua ausência tudo é monótono em redor do homem.

Entretanto, há momentos assim, em que a vida desportiva é sacrificada a favor de interesses mais sublimes. Em 1916, os Jogos Olímpicos de Berlim, que havia batido na concorrência à organização Alexandria e Budapeste, foram cancelados em função do eclodir da primeira Guerra Mundial, que colocou a Europa debaixo de fogo cruzado. Em 1942, a FIFA viu-se na contingência de anular o mundial de futebol, porque o mundo era assolado pela segunda Guerra Mundial.
A actividade desportiva só é possível em ambiente de paz e estabilidade. Temos à mão o exemplo do Girabola. Tinha o 6 de Outubro de 1979 como data de começo. Mas viu-se adiado para 8 de Dezembro, na sequência da morte do presidente Neto, em Setembro do mesmo ano. A data inicial constou do período de 45 dias de luto nacional decretado no país. Durante o mesmo não havia desporto nem farras.
Foram dias difíceis. Pois, ainda na euforia da ascensão à independência nacional, o país vivia uma intensa actividade desportiva, com o futebol em primeiro plano. Tinha celebrado dois anos antes(1977), as memoráveis jornadas de amizade Angola e Cuba, com jogos em Luanda e Havana, em 1978 o torneio”Ano da Agricultura”, para depois cair no ócio de um defeso forçado pelo passamento do Guia Imortal.
Na verdade, o desporto assume papel significativo na convivência dos homens, sendo um factor determinante na aproximação de povos de diferentes culturas. Mesmo em clima de conflito armado, vezes há em que os beligerantes pousam as armas, para dar primazia a um determinado evento desportivo, quiçá, servindo como bálsamo às tropas, que aproveitam exorcizar fantasmas, aliviar o tédio e retemperar energias para outras batalhas.
Há relatos, segundo os quais, ao tempo das rondas negociais da paz para o nosso país, num certo sábado maître Beye deslocou-se para o Andulo, ao encontro do velho Jonas. Decorria na Cidadela um Angola - Guiné Conacri, qualificativo ou para um Mundial ou para um CAN qualquer. Manuel Rabelais, o narrador em serviço da RNA, gritava ao microfone, como só ele sabia fazer, para Angola inteira. Luanda estava uma cidade fantasma. Uns no estádio, a maioria nas casas na televisão.
O voo para o destino foi breve. Ao desembarcar no pequeno Andulo, maître Beye, o expedito medianeiro do conflito, constata que o cenário não diferia ao de Luanda. A pequena cidade, ao centro Sul de Angola, estava, literalmente, parada. As pessoas sentadas, em grupinhos, sobre muros de quintais, pregadas aos rádios à pilha, atentas ao relato da Cidadela. Cada falhanço monumental de Akwá dava uma gritaria de total desespero, e cada golo celebrado com um ruído ensurdecedor, seguido de abraços efusivos.
O bom do maître Beye, estupefacto, questionou a lógica do seu papel de medianeiro. Compreendeu que os angolanos travavam uma guerra em vão. Sem razão de ser. Afinal defendiam os mesmos princípios, os mesmos valores, a mesma selecção. Sofriam com as derrotas e sorriam com as vitórias dos mesmos Palancas.
Em resumo, o desporto tem esta particularidade. Para lá do seu lado lúdico, joga papel de relevo na quebra de fronteiras conceptuais, para aproximar os homens em torno de um princípio comum. Sem desporto a vida fica limitada, sendo este o quadro que vivemos nos últimos dias, determinado pela reclusão domiciliária a que estamos todos sujeitos e submetidos.

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