Opinião

O Dia de África

Miguel Costa

Há 56 anos que o continente celebra o seu dia em honra à criação, aos 25 de Maio de 1963, da Organização de Unidade Africana (OUA). Na época, 30 Chefes de Estado e de Governo pertencentes a 32 Estados independentes assinaram a carta da sua fundação na capital da Etiópia, Addis Abeba. Hoje, o Dia da África tornou-se numa tradição fortemente enraizada em todos os países africanos, e representa o símbolo do combate de todo o continente africano para a sua afirmação, desenvolvimento e progresso económico e social.

Em 2017, enquanto decano dos embaixadores africanos em França, fiz uma intervenção na UNESCO, uma organização que representa a consciência universal e um lugar onde se traduz em actos o diálogo entre os povos e culturas, no respeito da sua diversidade.
Neste dia, na presença de vários filhos do continente, afirmamos que África trava uma luta difícil e a sua população aspira ao renascimento do continente, se bem que a organização continental se tinha fixado objectivos políticos muito ambiciosos e considerados prioritários, entre os quais podemos citar:
1-A boa governação, a democracia e estado de direito, os direitos humanos e as liberdades fundamentais, nomeadamente os direitos da mulher;
2-A justiça social, a luta contra as doenças endémicas, o domínio e vulgarização de novas tecnologias de informação e de comunicação;
3-A protecção do meio ambiente e o desenvolvimento económico e social durável.
A celebração este ano ocorre num momento crucial da história do continente, que está engajado numa mutação profunda, tanto no plano político e económico, como no plano social e cultural.
No plano político, a África é cada vez mais estável e consolida as escolhas democráticas como modo de governar. A qualidade de governança tem vindo a melhorar e o continente reivindica uma ambição à prosperidade económica e social. Com efeito, a África tem hoje uma taxa de crescimento notável, apesar do impacto da baixa dos preços das matérias-primas.
No plano social e cultural , a África deve melhorar os rácios em matéria de políticas sociais, de políticas de educação, de políticas de saúde pública, nomeadamente na luta contra as grandes pandemias, assim como em matéria de políticas culturais no continente, que não somente é considerado como o berço da humanidade, mas igualmente um mosaico dos povos e culturas.
A África tem mais de 2000 línguas e estima-se que o continente tem mais de 1000 grupos étnicos, com muitos grupos de indivíduos a partilharem o mesmo património cultural e histórico, línguas, valores e representações religiosas.
Hoje, a prioridade de África afigura-se como sendo muito simples. O continente possui uma das maiores reservas de terras aráveis e reivindica o património da biodiversidade entre os mais ricos no mundo. É também o continente que mais precisa de tecnologias e "savoir-faire" industrial e agro-alimentar para inverter o quadro vicioso em relação ao fenómeno da fome, da seca e passar do carácter rudimentar da sua produção agrícola para uma agricultura mecanizada.
Mesmo com alguns avanços, a África continua a sofrer, os indicadores do desenvolvimento humano não lhe são favoráveis, porque as políticas de industrialização e de inteligência artificial não surtiram efeitos na maioria das economias dos seus Estados e o clima de negócios não assegura a atractividade, excepto em alguns casos raros. A maioria dos países não foram geridos de forma a orientarem-se para a diversificação das actividades económicas, que permitiria a substituição das importações e o incremento das exportações, que são factores geradores de empregos e susceptíveis de aumentar o fluxo de divisas, tal como outros países petrolíferos e mineiros conseguiram, como são os casos dos Emirados Árabes Unidos, Qatar, Egipto, Tunísia , Botswana, etc...
A 12ª conferência económica africana, que decorreu em Addis Abeba, em Dezembro de 2017, admitiu e declarou que a má governação é o travão do desenvolvimento das actividades económicas em África e aumenta o custo do desenvolvimento. E acentua que a má governação leva a más eleições que, por efeito de ricochete, fragilizam as instituições, nomeadamente a justiça, e cria obstáculos para igualdade de oportunidades em África . Com o seu enorme potencial, o continente poderia estar entre as mais prósperas do Planeta.
Podemos dizer que a gestão é um dos factores primordiais, o desenvolvimento é apenas a consequência de bem gerir. O desenvolvimento do continente depende da boa governação dos recursos humanos, dos investimentos em capital e do factor trabalho.
Sem uma boa governação na prática dos Estados, todo o capital disponibilizado não poderá ser utilizado de forma adequada e corre o risco de ser desperdiçado; e todo o trabalho não poderá ser executado de acordo com os princípios da meritocracia. É assim hoje na maioria dos Estados africanos.
Quando as lideranças africanas acertarem as suas estratégias, a África estará no caminho certo.

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