Opinião

O dilema da permanência ou saída de Samakuva

Faustino Henrique

Uma das coisas impressionantes do longo exercício do poder, mesmo ao nível de um partido político, tem, algumas vezes, a ver com a síndrome da aparente inexistência de possíveis alternativas à sucessão de quem deve sair em tempo útil.

Quem fica muito tempo no poder e sem criar condições para a sua sucessão corre o risco de desenvolver ou ver promovida, pela sua entourage, a falsa ideia de que é melhor continuar porque não há mais ninguém.
O tempo de liderança de Isaías Samakuva, à frente da UNITA, contribuiu para coisas boas para o partido e para o país, bem como para coisas más igualmente para o Galo Negro e para o Estado angolano. Ao longo dos dezasseis anos de liderança, Samakuva teve o mérito de congregar todos os militantes  em torno do projecto político daquele partido, embora não faltem aqueles que o atribuem também  alguma inércia e mesmo ineficácia enquanto líder da oposição.
Durante algum tempo e à medida que o poder da anterior liderança do MPLA conhecia profunda erosão, Isaías Samakuva experimentava uma situação privilegiada para fazer oposição, independentemente de ter disputado vários pleitos em que saíra derrotado. A sua reeleição, em sucessivos congressos da UNITA, tinha como fundamento, até certo sentido, a vigência de um estado de coisas semelhante ao nível do partido no poder. Vozes internas no seio da UNITA davam-se ao luxo de dizer que estatutariamente não havia nada que impedisse Isaías Samakuva de se recandidatar “ad aeternun”, como se esse expediente fosse bom para um partido que se quer democrático e como alternância ao poder. As contas estavam a ser feitas apenas com o ex presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos, cuja “candidatura natural” ao nível do partido e consequentemente ao nível do Estado dava ao pessoal da UNITA a todos os níveis a mesma legitimidade para manter Samakuva à frente do partido. Mas com a transição de poder no MPLA, embora anunciada com muita  antecipação que levava os adeptos de São Tomé a esperar para ver e acreditar, subitamente todo o activo político de Isaías Samakuva desgastou-se e acentua-se a cada dia ao ponto da sua saída virar agora tema de conversa, dentro e fora da UNITA. “As pessoas deviam é preocupar-se com outras coisas mais importantes do que com a saída do presidente Samakuva”, disse recentemente o presidente da UNITA, numa alusão de que a sua permanência ou saída não devem ser encaradas como o mais importante neste momento. Na verdade, é muito importante e quanto mais cedo as coisas, relativas à saída ou continuidade, ficarem definidas, vai ser melhor ou pior para a UNITA. Não se pode perder de vista que, atendendo aos dois grandes eventos eleitorais que Angola vai conhecer daqui a um e dois anos, as eleições autárquicas e as gerais, fica melhor para a UNITA a definição da futura liderança. Ou pelo menos, a manifestação clara e definitiva da parte de Isaías Samakuva de que vai deixar a liderança neste ano, sem a recorrente “finta” que acaba sempre por ocorrer no fim, com a alegação de que “foi a pedido dos militantes que decidiu ficar”.
Ora, hoje o dilema de Samakuva, em permanecer à frente dos destinos da UNITA para, pelo menos, acompanhar  a disputa das autarquias, afigura-se como uma realidade, cada vez mais provável, a julgar por várias razões, a seguir descritas. E entre estas, a eventual razão pessoal do líder da UNITA, é a menos relevante e provavelmente inexistente na medida em que parece que durante algum tempo a UNITA precisou menos de Samakuva e hoje parece ocorrer exactamente  o contrário. Nesta altura e como primeira das razões apontadas,  a UNITA precisa mais de Samakuva porque a sua liderança, quer se queira, quer não, moldou o partido ao ponto deste ficar dependente politicamente do líder, estranhamente mesmo nas condições em que não houve ganhos eleitorais relevantes. É verdade que a UNITA fica mais fraca quanto mais tempo Samakuva estende o seu consulado, mas se calhar esse enfraquecimento pode acentuar-se com uma eventual saída abrupta, agora, a contar muito menos tempo para a liderança sucessora preparar o partido para disputar as eleições autárquicas, em 2020, e as gerais, em 2022, além de se dar devidamente a conhecer ao eleitorado como líder.  
A outra tem a ver com a inexistência de uma política interna de preparação de sucessor cujo papel esperado esteja, no mínimo, ao nível de quem vai sair, embora haja a ideia de que o partido tem quadros com perfil e, por isso, sem necessidade de um exercício de preparação. O cargo de vice-presidente na UNITA, até aonde se pode perceber, não foi criado ou não teve existência para formatar o sucessor do presidente do partido, mas essencialmente para promover o equilíbrio étnico no seio do partido, realidade que acentua o dilema da sucessão de Samakuva, mesmo com Raul Danda na "pole position".
Em todo o caso e como algumas fontes dentro da UNITA avançam, a realização do XIII congresso ordinário, que vai decorrer em  Dezembro, tem sido apontada, já de forma oficial, como o limite em que tudo se vai definir. Isaías Samakuva vai sair da liderança do “partido dos maninhos” e espera-se que a finta da “vontade dos militantes” não venha desvirtuar o que já se diz e se espera.
Dizia Barack Obama, ex Presidente americano, que, se um líder não consegue se fazer suceder por outro, com a pretensão ou alegação de que não há mais ninguém, é um dirigente fracassado. É bom que Samakuva em particular, neste dilema que enfrenta de ficar ou partir,  e a UNITA no seu todo, não dêem a impressão negativa de má gestão da saída do líder. 

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